terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Doce lembrança

Todos iguais: felizes ou infelizes todo o instante se esvai da mesma maneira, não há flores reais, sorrisos concretos. Existe um tempo despedaçado, finito e apressado: nunca haverá tempo de sobra, os sonhos ficarão para a sobremesa e o compromisso, que poderia ser adiado, será cumprido como uma exigência da vida que não pertence ao sujeito.

Comandados pelos compromissos, que vão nos acorrentando durante a vida, os homens esquecem de si mesmo e das impossibilidades que poderiam ser reais. O instante é um cuspe que seca rápido.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Inexaurível

Às arvores na estante fazem volume – diminuo o som e fecho os olhos para ouvir suas folhas, que batem secas no teto da casa. As coisas que se escondem na estante: já nem sei mais o que habita por ali, virou uma selva perigosa onde poucos aventuram a organizá-la. A estante já não tem importância, ela não tem espaços vazios, dimensões infinitas – era criança e entrava na gaveta maior, mas o tempo passou e nem mais um livro, nem mais uma traça, a estante ficou por acidente. Os livros, que são muitos, se espremem entre seus braços, e a estante coitada, é uma mãe cansada que já não suporta o peso dos filhos no colo. Os piolhos nas crianças: as traças nos livros. A prateleira quebrada: a mãe doente e velha. Não posso deixá-la que morra, farei uma pátina, comprarei um novo vidro, uma nova rodinha para seus pés – cadeira de rodas. Eu? Enfermeira de estante e babá de livros.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A lua lá

A lua parece uma bolacha. Não consigo acreditar que a lua da NASA seja a mesma lua que eu vejo da minha janela. São dois objetos antagônicos que não se completam. Minha lua é romântica e tem gosto de cera de abelha, brilha, reluz como uma pedra e está sempre ali. Também quero engolir a lua, mas só quando tudo está escuro. Descobri do que devo me alimentar. Sei exatamente das minhas necessidades. Preciso comer a lua para sobreviver a noite, as estrelas são pequenas sobremesas que degusto homeopaticamente até encher meu corpo de luz cósmica. Como, porque comer é fazer renascer a vida. Comer é o sepultamento da semente, engulo, ela brota em mim e renasce.

O corpo morto volta a terra porque a vida é um ciclo, a mãe pede de volta o que ela deu. A semente, a lua, a terra – pequenos elementos que compõe o cenário do universo. O universo é fundo e irreconhecível, quanto mais se busca, menos se compreende. Vejo o universo como uma tela gigante que meus olhos não conseguem emoldurar, é imenso, é infinito. Todo infinito é finito, uma hora se acaba, mas não percebemos porque não estamos mais aqui. A semente, a lua, a terra e o universo – grandes elementos que compõe a insignificância do homem. Não somos nada e jamais seremos, porque somos metade de qualquer coisa fragmentária. Não acrescentamos. Somos o acaso, o erro irreversível, o dissonante e isso é o que temos de melhor. A lua. O fim não é necessariamente o fim, sempre tem alguém para começar algo novo. A lua.

Um dia, alguém há de entender esses anseios e saberá matematicamente decifrar cada palavra, cada significado que está escondido em uma letra. Os símbolos e as metáforas existem para serem usadas até a exaustão, é o seu dever me servir. Engolir o cósmico, engolir as metáforas que eu não sei criar, engolir um pedaço de pão, a morte que circula. Chega. São sempre os mesmos pontos, que eu não percebo e ele rechaça por serem assíduos demais, acusam-nos de entrarem na frente das palavras mais importantes. Um assassinato das últimas palavras, os pontos não podem ser raros, mas sim contínuos e ininterruptos. Me corrompo? A lua.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Distorção


Passamos quase a vida inteira fazendo o que nos é exigido e não o que gostaríamos de fazer. Um momento: Esticar as pernas. Nossos pensamentos são contaminados e de repente eu tenho medo - do futuro próximo que não tarda e do presente. O dia está quente e penso em outras épocas, quando podia esticar as penas e colocar a cabeça para funcionar. Tornei-me mecânica, faço o que pedem e não o que eu penso, o que eu sinto. "Eu" ficou na esfera contemplativa - não existo mais. Agora, sou o nome do cartório, sou um cargo pequeno, todo mundo manda e mente. Eu não penso. Que seja apenas um estado temporário, minha bem-aventurança está escondida em algum lugar, algumas pedras a tampam e eu não consigo enxergá-la. Sou míope neste instante.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Sobre o nada


Eu queria poder falar sobre a mística que acompanha os dias de chuva, mas estou passando por uma crise de criatividade e simplesmente não consigo escrever nada que não diz respeito ao trabalho. Estou sofrendo com essa deficiência temporária e preciso pensar em alternativas de driblar a ausência de poesia no meu discurso. Pensei em ler mais, porém falta tempo, disposição. Falta tudo! Queria poder ficar sentada aqui, ouvindo a chuva batendo no chão, o ruído dos ventos, sentir o frio que corta meus pés. Queria apagar a luz; Os dias chuvosos combinam com a escuridão. As tartarugas são os dinossauros de hoje.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Decodificando humildade

Quando paramos para investigar alguns conceitos que, certamente, já se encontram com significados cristalizados, nos deparamos com algumas convergências. No caso, analisaremos a humildade e o valor que ela tem dentro da nossa sociedade e que tipo de indivíduos ela produz. Determinados adjetivos, quiçá todos, são carregados de valor polissêmico e podem significar muitas coisas de acordo com o repertório que carregamos.
A humildade sempre esteve qualificada como virtude, mas, Baruch de Espinosa, nos propôs outra leitura sobre humildade, que seria no caso o poder de nos ocultar diante de nossas potências, de esconder e disfarçar nossas qualidades e realizações. Hoje entendemos como humilde àquela pessoa que fica sem graça ao ser elogiado por um atributo que lhe é merecedor, como se não fosse digno de um elogio. Espinosa diz que esse comportamento é autodepreciativo e rebaixador e que não devemos esconder nossas habilidades, e de nenhuma maneira isso seria um sinal de soberba. O individuo soberbo é aquele que necessita de elogios e considerações quando realiza um feito. Ter plena consciência de nossas capacidades não nos reduz a indivíduos egoístas e arrogantes, pelo contrário, nos faz conhecedor de nossas limitações.
Quando nos conhecemos temos a capacidade de identificar quais são nossas maiores disposições para a feitura de um bom trabalho e, desta forma, acabamos por reconhecer, até mesmo de forma maniqueísta, o que não sabemos e temos dificuldade de aprender. Os limites entre humildade e soberba são tênues, mas facilmente apreendidos quando admitimos quais são nossas limitações.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

A náusea


Se alguém me perguntar do que se trata o livro “A náusea”, de Jean-Paul Sartre, certamente não saberia responder. Acredito que determinadas histórias e sensações são praticamente impossíveis de se descrever. Antoine Roquentin, o personagem principal do livro, faz comentários valiosos sobre algumas coisas da nossa existência, que na maioria das vezes passam por nós despercebidos; Às vezes não notamos que existimos, pois caso notássemos, sentiríamos o fardo peso que carregamos dentro de nós. Penso que vamos “levando” nossa vida quase que mecanicamente. Só compreendemos que existimos quando transborda nossas inquietações e elas se esparramam no chão. Pensamos que temos hábitos e manias e esquecemos que são os hábitos que nos fazem escravos do funcional e não ao contrário.
Devemos escolher o que queremos pra nossa vida: narrá-la ou vivê-la. Roquentin diz que o homem é sempre um narrador de histórias, das suas e a dos outros; Não sei qual das duas opções é a mais difícil, talvez viver exija mais esforço. Mas certamente não é possível ser tão maniqueísta a ponto de escolher apenas uma alternativa, é por isso que somos surpreendidos pela tal náusea; Vivemos em espiral sem perceber que nós somos a própria náusea e se pudéssemos, vomitaríamos nossa existência.
No livro “Idade da Razão”, Sartre diz que existir é beber a si mesmo sem sede.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Les chemins de l'art


Existem inúmeros questionamentos acerca da arte, que os próprios artistas não conseguiram ao longo do tempo replicar. Assuntos estes que acabaram se tornando objeto de estudo da Filosofia, mas especificamente a disciplina de estética. Quando analisamos a arte antiga, como as pinturas rupestres e bustos egípcios, percebemos que elas tinham uma finalidade específica e não eram consideradas obras de arte pelos seus criadores. Nas atuais produções artísticas, que já ultrapassaram todos os limites da contemporaneidade, fica difícil identificar o que de fato é uma obra de arte. O público, em geral, não tem contato com a obra de fato, mas com as suas reproduções nos meios de comunicação, como a Internet e a televisão. A arte tem uma finalidade? Qual é o objetivo de uma obra? Ela deve ter um objetivo específico?
Hoje, encontramos exposições de arte que interagem com o público, e que pode até mesmo ser interferido por quem aprecia. Acabaram-se as correntes artísticas e escolas que homogeneizava o estilo. Todas essas interrogações podem ser explicadas com o advento da era moderna, que acabou por extinguir as fronteiras. Escrever a história da arte até o presente é uma atividade complexa, pois a liberdade de experimentação deixa cada vez mais difícil concentrar em um só “ismo” todas as novas propostas e tendências do século XXI. Torna-se impossível escrever cronologicamente a história da arte e o caminho seguido pelos artistas, que trabalham de forma individual e mais voltados para balbúrdia midiática do que para as sensações que suas obras podem causar em quem as aprecia. Assim como todos os objetos se tornam comercializáveis pela mídia, a arte se tornou mais um produto nas imensas e globalizadas prateleiras.
Obviamente que existem magníficas obras contemporâneas, que são dignas de ser chamadas de arte e sabemos que elas acompanham a ciência, tecnologia e o pensamento que envolve essa época e, ao mesmo tempo, serve como uma válvula de escape desse turbilhão sufocante de informações. A arte não deixa de ser uma expressão e registro dos valores que predominam num determinado período. Não é apenas o clássico que merece ser reverenciado, pois cada escola, dentro do seu tempo, também quebrou barreiras e tabus e instalou na sua época, formas e técnicas que eram deveras chocantes e irreverentes.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Les quatre saisons


Parece que dentro de mim existem pedaços de todas as estações do ano. Elas interferem no meu humor, na minha produção textual e literária e no significado dos objetos que me cercam. No Outono, todas as coisas me soam incognoscíveis. Um período criativamente infértil; As palavras não fluem e os dias demoram a passar. É uma época em que meu coração-órgão sente uma leve saudade, mas não rende frutos nem anseios. Sinto vontade só de andar pelas matas, sozinha e esquecer de tudo e todas as coisas.
O Inverno, bem diferente do Outono, é fértil, criativo e preguiçoso. Eu só sinto saudades! Lembro dos ventos e dias frios que senti. Nessa época quero ir a Tinguá, mas no próximo, quero ir a Serra do Roncador, ver o que ficou perdido por lá e sentir a energia da natureza.
A Primavera é alegre, cheia de cores, reuniões e histórias para contar, me lembra os queijos e vinhos que já degustei. Adoro sentir a primavera, o espírito das flores, o cheiro das cores e a invasão da beleza nas ruas cinza. Não tenho muitas lembranças da primavera; Nunca fui a Paris.
No verão, me encolho como se estivesse com frio, ele é tumultuoso e suado. Tem muita gente aglomerada em espaços pequenos e mesmo que seja amplo, nunca há espaço suficiente para todos nessa estação. Então, eu me recolho. Os sons são ensurdecedores, há pânico e alvoroço na cidade, isso me causa náusea. O verão é o período transitório das belas bundas e dos braços fortes, tudo o que não interessa aos meus olhos cansados.
Mas termino falando do Outono, onde pareço ser acometida por sensações típicas; Ora sou uma folha leve caindo no chão, ora sou fria e café como o Inverno, bastando para isso, os ventos fortes dessa estação.



P.S - O Outono me lembra o "Império das Luzes" de René Magritte.

quinta-feira, 19 de março de 2009

O anticristo


Segundo Nietzsche, a vida é um devir constante. Não existe metafísica ou moral, a vida é apenas a vida e nada além disso, nada além-túmulo. Todas as nossas certezas são culturais e provém das relações humanas que construimos. Nietzsche não acredita na verdade, pois já existiram muitas e que ao longo da história foram desmentidas. A Terra por exemplo, já foi plana. Isso era uma verdade. O homem, acreditando no metafísico, acaba por desvalorizar a vida terrena; a única que temos, em prol de uma vida além desta que tudo é bom e belo. O homem nega a vida tornando-se um individuo dominado pela moral. Nietzsche atribui essa culpa ao cristianismo, que prega a padronização do homem, inserindo nele o princípio de culpa e a doutrina livre-arbítrio, que faz com que os homens pensem que são livres, que escolhem e pensem o que querem, enquanto na verdade são todos escravos da moralidade que há muito tempo foi difundida pelo cristisnismo. Onde todos os nossos desejos e prazeres são classificados como pecado, com o intuito de nos fazer sentir culpa daquilo que sentimos, além de carregarmos nas costas o pecado que nós não cometemos (Adão e Eva). Ao submeter-se a esse deus o homem nega sua vontade de potência, seu instinto e aquilo que o diferencia dos outros seres vivos, a razão (?).

segunda-feira, 9 de março de 2009

Empréstimo de livros

Giuseppe Arcimboldo

Não costumo emprestar meus livros, pois tenho muito apreço e me dá uma certa irritação não vê-lo na minha estante. Confesso que esta postura é um tanto egoísta, pois o conhecimento precisa ser disseminado, mas eu não sou uma biblioteca. Para arrancar meus livros da estante é preciso preencher na minha agenda a data de empréstimo e é claro a de devolução. Alguns livros meus estão perdidos por ai, esse é o motivo desta postagem. Gostaria de reavê-los, caso meus amigos leiam isso, peço que entre em contato. Há dois livros meus com a Amanda: " O amor nos tempos do cólera" e "Fadas no Divã". Com a Thaisa (amiga da Maiana) tem um livro muito raro: "Santo Daime". Com a Loeni: "O Mundo de Sofia". Mas existem três livros meus de francês que não sei com quem está, ele se chama: "Tout va Bien".



Peço que quem está na posse desses livros me liguem urgente!!!!!!!!

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O oportunismo sofístico e a transferência da Ágora grega

Não sei onde se esconde a verdade, mas não acredito que a Internet seja local-fonte de conhecimento, mas sim informação. O processo que leva informação a conhecimento é árduo e não se dá apenas pela consulta ao Wikipédia. É claro que com o advento da tecnologia e o progresso cientifíco a Ágora grega mudou de lugar, mas isso não quer dizer que precisemos referenciar a educação a algo de baixo escalão. Não acredito que os individuos leitores deste blog ficarão mais inteligentes depois de lerem uma postagem sobe Tocqueville ou Habermas, mesmo que renda uma discussão via web. A Internet é uma das traduções mais imediatas da realidade e de suas fraturas, esta teia infinita de veloz informação acaba produzinho uma certa naúsea e virtualização dos acontecimentos. O que é real e o que não é? O que causa uma certa ambigüidade (tudo bem que acabaram as tremas- mas eu amo) quando deixamos de apreendê-la de perto e verificamos que ela pode ser democrática, mentirosa, descentralizada além de causa sérias modificações lingüisticas que mais empobrece a língua. Não creio que a mutabilidade vinda de um referencial inferiorizado possa ser a solução para as transformações que o século XXI propõe. O individuo navegador passa para um estado de inflexão, que certamente não tornará este conhecimento uma ferramente de durabilidade.


terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Shivaísmo antigo e vegetarianismo


No livro "Shiva e Dioniso" de Alain Daniélou, ressalta os aspectos religiosos e culturais da Índia antiga, o que é bem diferente da Índia encenada pela Rede Globo. Antes das invasões arianas, a Índia tinha como maioria adeptos do Shivaísmo, a religião mais antiga das quatro principais. O vegetarianismo não existia porque para os Shivaístas não há diferença entre a morte animal e a vegetal. Foi o Jainismo que primeiro incorporou o costume de não comer carne animal e logo após, o vedismo e budismo. No hinduísmo, o vegetarianismo só é exigido aos brâmanes e negociantes, o que supõe uma minoria. Mas mesmo no Shivaísmo antigo, só era aceita a alimentação da carne animal, quando este era oferecido em sacrificio ao deus, comer um grande animal era como se todas as suas potências e qualidades fossem transferida àquele que se alimenta de sua carne.O ato guerreiro faz parte da própria natureza do homem, assim como é declarado no Bhagavad-Gita, quando Arjuna não deseja lutar contra seus parentes, mas mesmo assim o faz, apesar do movimento Hare Krsna ser completamente diferente do Shivaísmo.

Enfim, cada um para de comer carne por um motivo. É melhor não comê-la mesmo.