sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Inexaurível

Às arvores na estante fazem volume – diminuo o som e fecho os olhos para ouvir suas folhas, que batem secas no teto da casa. As coisas que se escondem na estante: já nem sei mais o que habita por ali, virou uma selva perigosa onde poucos aventuram a organizá-la. A estante já não tem importância, ela não tem espaços vazios, dimensões infinitas – era criança e entrava na gaveta maior, mas o tempo passou e nem mais um livro, nem mais uma traça, a estante ficou por acidente. Os livros, que são muitos, se espremem entre seus braços, e a estante coitada, é uma mãe cansada que já não suporta o peso dos filhos no colo. Os piolhos nas crianças: as traças nos livros. A prateleira quebrada: a mãe doente e velha. Não posso deixá-la que morra, farei uma pátina, comprarei um novo vidro, uma nova rodinha para seus pés – cadeira de rodas. Eu? Enfermeira de estante e babá de livros.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A lua lá

A lua parece uma bolacha. Não consigo acreditar que a lua da NASA seja a mesma lua que eu vejo da minha janela. São dois objetos antagônicos que não se completam. Minha lua é romântica e tem gosto de cera de abelha, brilha, reluz como uma pedra e está sempre ali. Também quero engolir a lua, mas só quando tudo está escuro. Descobri do que devo me alimentar. Sei exatamente das minhas necessidades. Preciso comer a lua para sobreviver a noite, as estrelas são pequenas sobremesas que degusto homeopaticamente até encher meu corpo de luz cósmica. Como, porque comer é fazer renascer a vida. Comer é o sepultamento da semente, engulo, ela brota em mim e renasce.

O corpo morto volta a terra porque a vida é um ciclo, a mãe pede de volta o que ela deu. A semente, a lua, a terra – pequenos elementos que compõe o cenário do universo. O universo é fundo e irreconhecível, quanto mais se busca, menos se compreende. Vejo o universo como uma tela gigante que meus olhos não conseguem emoldurar, é imenso, é infinito. Todo infinito é finito, uma hora se acaba, mas não percebemos porque não estamos mais aqui. A semente, a lua, a terra e o universo – grandes elementos que compõe a insignificância do homem. Não somos nada e jamais seremos, porque somos metade de qualquer coisa fragmentária. Não acrescentamos. Somos o acaso, o erro irreversível, o dissonante e isso é o que temos de melhor. A lua. O fim não é necessariamente o fim, sempre tem alguém para começar algo novo. A lua.

Um dia, alguém há de entender esses anseios e saberá matematicamente decifrar cada palavra, cada significado que está escondido em uma letra. Os símbolos e as metáforas existem para serem usadas até a exaustão, é o seu dever me servir. Engolir o cósmico, engolir as metáforas que eu não sei criar, engolir um pedaço de pão, a morte que circula. Chega. São sempre os mesmos pontos, que eu não percebo e ele rechaça por serem assíduos demais, acusam-nos de entrarem na frente das palavras mais importantes. Um assassinato das últimas palavras, os pontos não podem ser raros, mas sim contínuos e ininterruptos. Me corrompo? A lua.