sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A lua lá

A lua parece uma bolacha. Não consigo acreditar que a lua da NASA seja a mesma lua que eu vejo da minha janela. São dois objetos antagônicos que não se completam. Minha lua é romântica e tem gosto de cera de abelha, brilha, reluz como uma pedra e está sempre ali. Também quero engolir a lua, mas só quando tudo está escuro. Descobri do que devo me alimentar. Sei exatamente das minhas necessidades. Preciso comer a lua para sobreviver a noite, as estrelas são pequenas sobremesas que degusto homeopaticamente até encher meu corpo de luz cósmica. Como, porque comer é fazer renascer a vida. Comer é o sepultamento da semente, engulo, ela brota em mim e renasce.

O corpo morto volta a terra porque a vida é um ciclo, a mãe pede de volta o que ela deu. A semente, a lua, a terra – pequenos elementos que compõe o cenário do universo. O universo é fundo e irreconhecível, quanto mais se busca, menos se compreende. Vejo o universo como uma tela gigante que meus olhos não conseguem emoldurar, é imenso, é infinito. Todo infinito é finito, uma hora se acaba, mas não percebemos porque não estamos mais aqui. A semente, a lua, a terra e o universo – grandes elementos que compõe a insignificância do homem. Não somos nada e jamais seremos, porque somos metade de qualquer coisa fragmentária. Não acrescentamos. Somos o acaso, o erro irreversível, o dissonante e isso é o que temos de melhor. A lua. O fim não é necessariamente o fim, sempre tem alguém para começar algo novo. A lua.

Um dia, alguém há de entender esses anseios e saberá matematicamente decifrar cada palavra, cada significado que está escondido em uma letra. Os símbolos e as metáforas existem para serem usadas até a exaustão, é o seu dever me servir. Engolir o cósmico, engolir as metáforas que eu não sei criar, engolir um pedaço de pão, a morte que circula. Chega. São sempre os mesmos pontos, que eu não percebo e ele rechaça por serem assíduos demais, acusam-nos de entrarem na frente das palavras mais importantes. Um assassinato das últimas palavras, os pontos não podem ser raros, mas sim contínuos e ininterruptos. Me corrompo? A lua.

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