sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O desuso do mito na sociedade contemporânea

O mito é uma maneira de contar as origens do mundo e de seus ancestrais a sua tribo, o seu compromisso não é com a veracidade factual, mas com a eficácia que exerce nas pessoas que o escutam. Não devemos encará-lo como algo irracional provindo de sociedades atrasadas, mas como uma parte indispensável para a desmistificação da história e de seus povos. Após o mito cair em desuso e ser considerado como algo irracional, os deuses foram excluídos da esfera humana e incapazes de solucionar seus problemas – a sociedade e sua complexa hierarquia combinada com o avanço da tecnologia arrancaram os deuses e o potencial divino da natureza para fora da sociedade moderna, o que provocou dentro de cada indivíduo um vácuo espiritual, que hoje é preenchido com superstições como alternativa de obter algum benefício ou satisfação pessoal. Vale ressaltar que até os próprios rituais da atualidade são produzidos e praticados individualmente, já que a característica coletiva-pública do mito foi enterrada junto com os seus deuses e o que vemos é uma sociedade desesperada por resultados imediatos e particulares.

Retrocedendo alguns séculos podemos perceber os sinais que se estenderam na era axial, que foi provocado pelo mesmo vazio espiritual e insatisfação com as estruturas religiosas e sociais, mas que resultou em religiões e correntes espiritualistas como o budismo e confucionismo em que a verdade só poderia ser encontrada dentro de si mesmo – indícios do que temos hoje, porém com uma dosagem extravagante de superficialidade, pois não há tempo nem para pensar no que está ao nosso redor. Em prol de uma vida mais confortável, abrimos mão nós mesmos e rejeitamos a nossa natureza para obviedade do mundo material, em que se ganha e perde numa velocidade surpreendente.

Destroem-se sonhos e objetivos comuns, como os mitos, para criar efêmeros objetos de contemplação, que se tornam referência para grande parte da população. A televisão, no lugar do xamã, tornou-se o grande iniciador das pessoas dentro do campo mítico, mas os entes que habitavam o sobrenatural e eram os grandes invocados se tornaram bundas e indivíduos vazios. Isso demonstra caminho da imbecilidade no qual caminhamos.

A maioria dos mitos fala que para todo o inicio é preciso um fim e assim o mundo é destruído e construído, num ciclo interminável de nascimento e morte, onde o mito serve como uma narrativa de preparação para a grande e esperada passagem, para que o planeta possa ser regenerado e recupere suas forças criadoras.