quarta-feira, 12 de maio de 2010

Hinduísmo e pirâmide das varnas

A filosofia hindu ortodoxa, que hoje conhecemos como hinduísmo, surgiu da antiga religião ária dos vedas. Um panteão de deuses dotados de super poderes, e comportamentalmente muito parecido com os homens, faziam parte da adoração religiosa. Na mesma época em que os deuses gregos caíram em declínio por conta da filosofia e do pensamento racional, na Índia foi preciso reinventar os deuses de acordo com a nova estrutura do pensamento. O Bramanismo surgiu com uma hierarquia espiritual, onde as demais divindades passaram a exercer outro papel e uno divino é Bhrama. Os deuses são apenas fios condutores para chegar ao uno primordial, e cada ser humano passa a ser dotado da centelha divina – os deuses passam a ser encarados apenas como os primeiros descendentes da força cósmica. No Egito e na Grécia os deuses foram ridicularizados por suas características demasiadamente humanas, incompatíveis com o sentido posterior de divindade. Mas a Índia nunca exonerou e renegou seu panteão, apenas deu a eles novos papéis. Reinventar a religião é primordial para adequar a realidade com a praxis religiosa. O indólogo Heinrich Zimmer disse: “A Índia conservou suas personificações antropomórficas das forças cósmicas como máscara de grande vigor expressivo, como magníficas personae celestiais, que podiam servir como opção para auxiliar a mente em sua tentativa de compreender o que considerava manifesto por meio delas”. Indra, Varuna e Agni diminuíram de importância dando ascendência aos deuses mais jovens.
Os grandes rituais, praticados somente por sacerdotes cederam lugar a uma adoração mais íntima com Bhrama. Os sacrifícios animais foram substituídos por oferendas como manteiga, iogurte e flores. E a principal motivação é buscar a unidade básica que dá origem a multiplicidade. Os nomes e formas são encarados como acidentais e efêmeras, a realidade é distorcida pelos sentidos. Daí o sentido de Maya – ilusão. Todas as formas ultrapassam as formas e descobrir isso passou a ter um caráter emergencial. O hinduísmo é caracterizado pelo não-dualismo, onde os pares de opostos são apenas uma maneira de como a mente humana percebe as coisas. Daí a importância de transcender a realidade para compreender a verdade.
O Hinduísmo se apropriou de diversas correntes anteriores a invasão ariana, como o Jainismo, Samkhya e Yoga, que, de acordo com o Heinrich Zimmer são as religiões mais antigas. Assim como o cristianismo se apropriou de elementos pagãos para trazê-los a doutrina cristã, o hinduísmo também buscou, depois de muita resistência e inflexibilidade, trazer as centralidades da antiga região indiana para dentro do corpo bramânico.
Com a invasão dos árias na Índia, eles criaram a da pirâmide das varnas (castas) e reduziu a população nativa a papéis sociais inferiores (sudras), dando-lhe tarefas consideradas impuras e desta forma expandiram seu domínio. No antigo livro Dharna-Sastra é possível ler que, se um sudra ouvisse acidentalmente a recitação de um hino védico, este deveria ser punido enchendo suas orelhas com chumbo derretido. Todas as tradições não-védicas rejeitam o sistema de castas. Muitos indianos migraram para outras religiões em busca de igualdade. Exemplo disso foi a aceitação em massa do budismo, que rejeitava a pirâmide das varnas e tratava a todos por igual independente de sua origem.

Fonte: Filosofias da Índia – Heinrich Zimmer

6 comentários:

۞ Potira ۞ disse...

Olha só... Coloquei o teu blog na minha lista de sugestões de leitura do meu blog... Agora tá aqui na coluna da direita e os meus amigos também podem conhecer o teu blog.

=)

Flor Baez disse...

Que legal Potira!!!
Obrigada!!! Quero pegar as músicas com você!!! No final de semana vou entrar no msn! Me adicionou?
Bjs!!!! e obrigada por tudo!

The human who sold the world disse...

Meu Deus!! Que site é esse? Me fala para eu sem querer não procurar aula de yoga nele! Ei, vc tem esse livro citado? Queria muito ler. Se vc tiver, tem como me emprestar?

P.S. = eu não acordei João... fui inspirada. ;) O único eu verdadeiro de mim (kkkk) é no conto autobiográfico.

Heleno Alves disse...

As pessoas ainda conservam coisas inexplicáveis. Isso devia ser denúnciado, isso sim!

Lady Daiana disse...

Muito bom! Não conhecia essas informações e fiquei muito interessada neste autor. Ele tem outros livros?
Obrigada

Flor Baez disse...

Olá Lady Daiana, só agora vi seu comentário. Ele tem outros livros sim, mas poucos traduzidos em português. Aqui você encontra, além de filosofias da Índia, o Mitos e Símbolos na arte e civilização da Índia. Para completar, você pode consultar as obras de Joseph Campbell, já que eles foram grandes parceiros.
Abs,