segunda-feira, 10 de maio de 2010

Pedaço de papel

Adoro papéis! O penúltimo que encontrei foi no trem, dentro de um envolope branco e me ferrei! Era uma corrente de Jesus Cristo! Obviamente, quebrei! Não tenho saco para isso. Este é o último papel que encontrei, dentro da sala de aula, na FACHA, quando eu ainda estudava de manhã. Longe de ser fofoqueira, mas não tinha nome e nenhuma identificação, então transcrevi. Interessante... Já imagino quem seja a professora, porque só tenho duas. O estranho é me ver incluida no pacote. Enfim...

“Ela já tinha me contado isso. Ela conta as mesmas histórias, acho que ela já não tem mais nada para me contar, por isso repete os mesmos vocábulos, as mesmas histórias. Não me interessa resolver os problemas do mundo, pois nunca irei conseguir. Prefiro resolver meus problemas que são ralos, densos e pertencem exclusivamente a mim. Esta professora lê lentamente, acho que ela deseja o meu sono e os ruídos do meu bocejo. Eu já avancei neste assunto do qual ela trata – zero ruído no meu entendimento. Leio o suficiente para essa turma toda.
Só tem liberdade quem é rico, pobre não pode fazer escolhas e quando pensa que faz oscila entre o zero e o nada. Quem inventou um zero foi um indiano, tenho quase certeza disso. Ahhhh! Soubera isso há 10 anos e teria me empenhado nos cálculos.
A ignorância não tem limite e nem classe social. Sei da minha ignorância quando converso com um individuo sem as mesmas limitações intelectuais. Meus amigos são burros e não sabem que existem. Se soubessem não teriam tanta certeza das coisas. Eu não queria ser ninguém nesta sala. O cinismo deles fedem. Eles pensam que existem, mas nunca sentiram o seu corpo preso na cabeça; Nunca perceberam o peso que é carregar o seu corpo o dia inteiro.
Ela acha que sabe de todas as verdades, mas a única coisa que ela sabe são palavras eruditas que impressionam apenas os aspirantes acadêmicos e esta turma. Sinto que todos aqui parecem extasiados com o que ela diz. São tão imbecis! Precisam de um arauto para ensinar aquilo que é óbvio. Ela fala da contemporaneidade, pós-modernismo como se fosse um mistério! Não, não é um mistério. Eu conheci o Bauman.Ela repete miseravelmente o discurso de Bauman. Nós somos a cultura de massa! Mas essa turma inteira é uma massa homogênea e prova como as pessoas são capazes de se anular frente à existência. Eles se preocupam com o tênis colocam nos pés, com as marcas que consomem e eu os odeio por isso. Passaria a não odiá-los se pudesse ficar distante deles – ai sentiria apenas piedade. Mas conviver, ouvir suas vozes, seus gostos, seus cheiros me causam uma profunda náusea.
Ela fala do capitalismo selvagem como se não participasse dele. A verdade é que todos criticam o atual sistema econômico, mas todos gostam da vida que levam! Amam o conforto. Amam a eletricidade e sua chapinha de cabelo.
Isso tudo me cansa.”

3 comentários:

Alexandra Deitos disse...

Nunca encontrei papéis. rss
Bem interessante o que estava escrito, né?
E digo que poderia reclamar a autoria desse trecho:
"Ela acha que sabe de todas as verdades, mas a única coisa que ela sabe são palavras eruditas que impressionam apenas os aspirantes acadêmicos e esta turma."
Odeia essa mania que professores possuem de achar que sabem todas as verdades, que são os donos delas.

Beijos.

Louco da Árvore disse...

Texto notável, de fato.

Flor Baez disse...

Então, eu sempre encontro papéis...ou talvez eu que fique buscando demais! Encontro papéis interessantissímos!!!

Quanto aos professores, Alexandra, tive muitos assim! Mas em compensação tive outros maravilhosos que me ensinaram com humildade.
Bjs