segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Danças Clássicas Indianas: Bharata Natyan, por Krishna Sharana


Olá amigos, dando continuidade a nossa série de entrevistas com profissionais da dança indiana que atuam no Brasil, Convidamos a linda Krishna Sharana que também é uma das administradoras do Blog Dança Indiana Brasil e a página do Facebook
Krishna Sharana tem 31 anos e é formada em Bharatanatyan, pelo Aatmalaya Institute (Bangalore). Além de lecionar nos grupos Aatmalaya em Porto Alegre e o grupo Aatmanatyam em Florianópolis, Krishna também realizal workshops e apresentações em diversos estados do Brasil.
Confiram a profundidade e o conhecimento compartilhado por Krishna Sharana! Eu, simplesmente fiquei encantada! Obrigada, Krishna!

Páprica Doce: Conte um pouco sobre o Bharata Natyam...

Krishna Sharana: Há mais de 5 mil anos atrás, existia somente um tipo de dança clássica na Índia, e era chamado de “Sadir”, realizada nos templos e cortes, pelas Devadasis, que dedicavam a vida a essa arte. Depois da invasão inglesa, a dança clássica foi proibida por eles, sendo considerada “obscena”. Somente depois de muitos séculos começaram a surgir diferentes tipos de dança clássica, influenciados pela região em que eram praticadas.
O Nome “Bharata Natyam”, na verdade, foi criado no início do séc. 20 por pioneiros que trouxeram a tradição do Sadir para fora do obscurantismo.  É considerada a dança mais fiel ao Natya-Shastra, a escritura milenar do teatro e dança.
A teoria e técnica do Bharata Natyam, extremamente complexas, são passadas de geração em geração pelo Guru Parampara- sucessão de mestre-discípulo. Essa ligação é extremamente importante para se estabelecer a autenticidade e para que os ensinamentos não sejam perdidos. Devido a isso, não existe a possibilidade de alguém ser autodidata nessa arte tão rica.
PD: Quais são as características mais marcantes no Bharata Natyam?
KS: O Bharata Natyam é conhecido por sua riqueza de repertório, que é extremamente variado, com poses esculturais, elementos dramáticos, expressões do rosto e gesto das mãos, e principalmente aos passos rítmicos que dão ênfase ao movimento do corpo em harmonia total com a música. Não é meramente uma dança e sim uma prática espiritual que visa elevar o dançarino e a platéia a um nível superior de consciência. O corpo se torna o instrumento da transcendência, meditando em movimento.
PD: Como você ingressou no universo da dança clássica indiana?
KS: Desde a minha infância, por influência da minha família, era muito interessada em assuntos espirituais. Aos 13 anos comecei a praticar Yoga. Daí começou o meu fascínio com a cultura e filosofia indianas. Quando descobri que haviam aulas de dança indiana em Porto Alegre, em 1996, com somente 15 anos de idade, não pensei duas vezes, apesar de na época não ter idéia do papel que a dança ia ter na minha vida. O Bharata Natyam me conquistou e continua me encantando até hoje. Quando em 2005 pude finalmente ir para a Índia me aprofundar nessa arte, tive experiências muito intensas. Realizei que essa dança milenar é uma prática completa, que engloba história, filosofia, música. Yoga, ritualística e muito mais. Desde 2005 tenho ido anualmente estudar com a minha Guru na Índia.  Esse ano em Março tive a oportunidade de realizar o meu primeiro recital solo na Índia, chamado de Arangetram, e foi um grande marco na minha carreira.
PD:  Quem é sua maior influência no Bharata Natyam?
KS:  Sem sombra de dúvida, a minha querida Guru, Dra. Padmaja Suresh. Incrivelmente inteligente e espiritual, ela é uma grande inspiração para mim, além de ser minha mestra, é uma grande amiga e conselheira. Ela iniciou os estudos na dança aos 4 anos de idade, e até hoje continua ensinando e apresentando na Índia e em diversos países ao redor do mundo. Ela também é uma grande intelectual tendo diversos artigos publicados em jornais e sites. Meu sonho é poder traze-la ao Brasil para partilhar o seu conhecimento e suas experiências com a dança e a espiritualidade.
PD:  A expressão facial é uma característica muito importante em todas as danças clássicas indianas. Para você qual é o maior desafio desta linguagem gestual?
KS: O abhinaya, que é a parte expressiva da dança, vai muito além da expressão facial e engloba tudo o que o corpo transmite ao dançar. Isso vai refletir nossa consciência interna e nossas realizações mais profundas, e nossa interpretação pessoal, baseada em nossas experiências, do tema que está sendo apresentado. Creio que a maior dificuldade em se falando de Ocidente, é que a expressão acaba ficando muito superficial, como se estivéssemos apenas imitando, sendo que temos que VIVER aquele momento, como o personagem, e ser inspirado pelas lições da história sendo interpretada. O estudo do significado e das nuances da poesia a ser interpretada é muito importante, assim como o conhecimento da cultura e filosofia hindu. O Bharata Natyam é vivência, é realização, e não um simples contar de histórias.
PD:  Quais são os trajes mais utilizados no Bharata Natyam?
KS: A julgar pelas esculturas achadas nos templos mais antigos, as dançarinas de Sadir vestiam-se somente com um tipo de canga, com diferentes tipos de amarrações, muito similar aos que os homens usavam, chamado de “dhoti”, e um tipo de bustiê, sendo que algumas dançavam sem o bustiê, já que naquela época não existia nenhum tabu em se mostrar os seios. Já as jóias e arranjos de cabelo eram muito mais abundantes e complexas que a roupa. A partir da idade média as Devadasis passaram a usar blusas, chamadas Choli, com um sári amarrado de diversas maneiras ,e uma calça por baixo. No séc. 20, as roupas passaram a ser costuradas, e são muito práticas de vestir.. Hoje em dia existem 3 tipos de trajes principais: O de calça, o de saia e o de sári. Tanto o de saia quanto o de sári são inspirados nos sáris usados na idade média, já a roupa de calça é inspirada nos dhotis que vemos nas esculturas mais antigas. Toda e cada parte dos ornamentos tem um significado muito profundo. A parte mais importante e sagrada do traje é o "Gajje", ou a tornozeleira de guizos, pois é o que marca o ritmo da música e é um instrumento musical que usamos o corpo para tocar.
PD:  Como você avalia o maior interesse das pessoas na dança indiana atualmente no Brasil?
KS: Vejo que há muita curiosidade em relação a dança, especialmente a clássica pois ainda é pouco conhecida. Mas pela própria dificuldade da dança, que requer uma certa disciplina e dedicação,  os praticantes ainda são poucos. A onda da novela ainda criou um clichê muito grande, pois começaram a aparecer muitas pessoas que se diziam entendidas da dança indiana. Vimos muitas aberrações e felizmente a onda baixou rsrsrs.  Mas é importante que cada pessoa que pratica e admira a dança a apresente de forma adequada, pois senão a pessoa estará fazendo um desserviço á arte e aos dançarinos dedicados, e isso tem um impacto muito forte em todo o meio, que já é pequeno. Nunca devemos nos conformar com o medíocre, só porque “as pessoas não sabem o que é mesmo”. Uma das maiores lições da dança é justamente o da superação dos limites.  Todo dançarino deve sempre continuar aprendendo e evoluindo, pois como é dito no Natya Shastra, “a arte desta dança é infinita”.



Agora assista o apresentação de Krishna Sharana: 


3 comentários:

Anônimo disse...

A entrevista estámaravilhosa!
E a dançarina é simplesmente linda, parece uma deusa!

Ambika disse...

This is a very interesting interview! Thanks for sharing.

Ananda Devi disse...

Queria fazer aula com ela! Pelas suas colocações já podemos sentir o quão importante é a dança para ela. As perguntas foram ótimas e as respostas muito completas. Não deixou nada a desejar.

Hare Krishna!