domingo, 4 de dezembro de 2011

Danças Clássicas Indianas:Odissi, por Andrea Albergaria


Olá amorosos amigos!


 A série Danças Clássicas Indianas chega com uma nova entrevista com Andrea Albergaria, dançarina de Odissi, natural de São Paulo e crescida no Oriente Médio. Andrea é Licenciada em Letras e Artes Cênicas e dedica-se ao estudo da dança Odissi desde 1994.

Com apresentações no Brasil, África e Índia, também ministra aulas regulares e cursos intensivos desta modalidade de dança clássica indiana. Recebeu menção honrosa do parlamento indiano do estado do Gujarat, e em novembro último, apresentou-se no International Festival of Music and Yoga, em Rishikesh, India. Vai a Índia regularmente para aprofundar seus estudos em Odissi.

Páprica Doce:    Sabemos que o estilo Odissi nasceu com as dançarinas dos templos indianos. Conte-nos um pouco sobre a história do Odissi.

Andrea AlbergariaA dança Odissi, encontrada no Natya Shastra como Odra Maghadi, nascida em Orissa (antigamenta Odra Desh), tem registros arqueológicos anteriores ao século II a.C. em esculturas de dançarinas nos arredores de Bhubaneswar, capital de Orissa. Nascida como parte do culto religioso em louvor às divindades, a dança Odissi permanece até os dias de hoje com o caráter sagrado, seja dançada nos templos ou nos palcos, o repertório continua sendo uma forma de louvor.

PD: Quais são os temas preferidos do Odissi?
     
      AA: O repertório da dança Odissi foi codificado pelos gurus com os cinco itens necessários para um programa completo: Mangalacharan (saudação inicial á Mãe Terra, seguida de oração a uma divindade, geralmente Sri Ganesh, e finalizada com a saudação tripla a Deus, ao Guru e a audiência), Battu (dança consagrada a Shiva, com a interpretação das posturas que remetem aos músicos celestiais e a dança de Shiva), Pallavi (composições diferentes relacionadas a inúmeras ragas, em dança pura, como o Vasant (raga Vasant), Saveri, Shankaravaranan, entre tantos outros), abhinaya (peças interpretativas relacionadas ao Gita Govinda, livro  do poeta máximo Jayadeva, século XII, onde o amor sublime de Krishna e Radha é relatado) e o Moksha, item que finaliza o repertório, relacionado com a libertação do ser humano, dentro do conceito hindu das fases da vida.


       
     PD: Como foi seu ingresso no universo da dança clássica indiana? Por que Odissi?
      
     AA: Cresci no Oriente Médio, mais precisamente no Iraque, onde muitos indianos trabalhavam na mesma empresa que meu pai. Os sáris, o mehandi, o jeito das indianas que eu conheci sempre me fascinaram. Voltando ao Brasil, cursando a Universidade de Artes Cenicas, na Unicamp, entrei em contato com o estudo dos gestos e movimentos do ator, pesquisados por Eugenio Barba. Encantei-me com a profundidade do estudo dos gestos e expressões do teatro do sul da India, o Kathakali. A pesquisa começou aí, em 1994, até que iniciei meus estudos nas danças Bharat Natyam e Odissi, com professoras brasileiras que iniciavam sua jornada nesta caminhada e que me abriram portas para o conhecimento. Um ano depois estava eu na Índia, em Orissa, mergulhando e recebendo o néctar divino deste conhecimento que é infinito, apaixonante e que me faz muito feliz. Em 1996 conheci Guru Kelucharan Mohapatra, na sua casa, que mostrou um caminho que eu deveria seguir. Nunca parei minha prática, minha pesquisa e meu amor e devoção a esta arte só aumenta.
     
      Não sei porque o Odissi. Amo assistir a todas as danças clássicas indianas, principalmente Bharat Natyam, que é muito vigorosa e apaixonante, mas para dançar, expressar minha alma, entregar de verdade o meu ser ao movimento sagrado a dança Odissi é meu veículo. Não a escolhi. Fui escolhida. E devo isso ao Senhor Jagannatha, que tudo vê e se alimenta de alegria e dança. Como eu.

      PD: A graciosidade dos movimentos é encantador no Odissi. Quais são os elementos que você considera mais importantes neste estilo?

      AA: Sou apaixonada, sou fã deste estilo, então não tem algo que seja mais ou menos importante para mim. Cada mínimo movimento, que faz parte do todo, tem seu valor infinito.  A energia de praticar ou de assistir é como se fosse uma corrente elétrica que carrega minha bateria. Então desde o movimento dos olhos, ou um tronco, ou os mudras, enfim, tudo é mágico, mas é claro que a sinuosidade provocada pela forma em S, da técnica em tribhanga, formada por triângulos corporais, que só é encontrada na dança Odissi é realmente hipnotizante.

     PD: Quem é sua maior inspiração no Odissi?

     AA: Todas as pessoas que se dedicam a este estilo já tem minha admiração porque não é um caminho fácil, tanto físico, como mental e espiritual. Mas algumas pessoas que já conheci fizeram a diferença no meu estudo. E também tive a honra de conhecer dois dos quatro gurus que revitalizaram a dança Odissi, guru Kelucharan Mohapatra e Guru Mayadhar Raut, que ainda vive em Delhi, aos 83 anos. Mas também admiro aqueles que não têm nomes em neon, ou em sites, aqueles que dançam porque só sabem dançar, porque são como pássaros, cantam e pronto. Dançam sem subsídios, sem apoio, e não param porque amam sua alma e o jeito que ela se expressa. Gosto de verdades, de quem não é detido por adversidades. A dança atravessa os séculos assim, por que existem gurus e porque existem pessoas que não vêem limites e acreditam no que fazem.  Mas sinceramente minha admiração vai para Guru Manoranjan Pradhan e sua esposa Minati Pradhan, que formam o dueto mais perfeito que pude ver na dança Odissi. Talvez porque este dueto também é harmônico na vida pessoal e familiar deles, na fé no Senhor Jagannatha, no amor que tem pela família, ou seja, são seres humanos da melhor qualidade, e assim, quando dançam esta verdade de quem são é demonstrada na dança. Fazer aula com eles , na casa deles, em Orissa, pra mim foi uma grande e feliz benção.

     PD: Que relação você vê entre a Dança Clássica Indiana e Dança Tribal?

      AA: Não vejo relação direta entre a dança Odissi e a dança Tribal. O que vejo é que a dança Tribal utiliza conceitos de danças milenares, como as danças indianas e seus mudras. Por isso as bailarinas de dança tribal me procuram para que eu possa ensinar os gestos a serem utilizados com o significado verdadeiro, pois do contrário o uso dos mudras fica caricato e sem sentido.

     PD:  Para fechar, quais são os maiores obstáculos de trabalhar com a dança indiana no Brasil?

     AA: Obstáculos? Não vejo obstáculos, moro numa cidade distante de São Paulo mais ou menos 60 km, pequena e pacata. Desde 1997 organizo espetáculos, que lotam o teatro, divulgo a dança Odissi na região, tenho alunas de todas as idades, escrevo para revistas locais sobre a arte clássica da Índia, vou a Índia quase que anualmente, e me relaciono bem com outras bailarinas do mesmo estilo.  Tenho alunos que vem do litoral, de Campinas, de São Jose dos Campos. Vou a outros estados ensinar, me apresentar. Sinceramente, sou muito feliz e acredito que dançar Odissi no Brasil é uma missão. É mostrar uma pequena chama de uma lamparina, que mostra um caminho, que dá idéia do brilho máximo de expressão artística que o ser humano pode alcançar na dança Odissi, vinda da mágica terra de Orissa.  Jaya Jagannatha!




2 comentários:

Osni Dias disse...

Muito bom, Flor, gostei da entrevista. Seu blog já está nos meus Favoritos, parabéns!

Flor Baez disse...

Olá Osni! Obrigada! Eu é que agradeço sua visita, sua presença aqui!

Com amor,
Flor