sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Infinito Abstrato (1)

Compartilhando com vocês a história que escrevi "Infinito Abstrato". Nunca foi publicado, porque não tenho coragem. Depois que os anos passaram li e não gostei mais do que eu escrevi a ponto de investir numa publicação, o que saí demasiadamente caro. Então, resolvi postar a história aqui, a história da moça que não tem nome, que não guarda rostos e que vive na espreita. 

*****
Eu andava com calma, olhando para o céu e vendo os raios do sol cortando e entrando na casa de madeira. Na varanda, uma mulher costurando numa mesa; na rede, um velho preguiçoso. Os raios do sol deixavam a madeira mais bonita, eu queria engolir aquilo. Queria engolir os raios do sol, a rede, a máquina de costura. Eu queria engolir a vida que exalava da casa. Talvez não esteja sendo clara, mas não existem palavras suficientemente válidas que dêem coerência e significação para as coisas que eu sinto. Descobri que o que se sente não se escreve, pois toda a mágica que está no ato de sentir, esvai-se quando tentamos torná-la palpável para o outro. Tentei explicar para ele aquilo que eu estava sentindo, mas a tentativa foi vã, ele não consegue pensar abstrato: sou abstrata em tempo integral, não me interessa saber apenas o que faz sentido. Muitas coisas não têm sentido algum e eu debruço nessas coisas e as disseco, como um estudante de medicina a um cadáver.  
Hoje tive sonhos estranhos: sonhei que estava sendo torturada por um imbecil, como se eu estivesse na época da ditadura militar. Fui me esconder na minha dentista e ela chorava, com medo do que pudesse acontecer comigo. Mas acordei e não houve desfecho. Já tive muitos sonhos bons, conheci Sófocles e Antônio Conselheiro, hoje eles são meus amigos. Talvez o que vivemos acordados seja o sonho e quando dormimos morremos para ressurgir no outro dia. Em que dimensão se esconde a coisa do sonho? Dormir é uma preparação para a morte. Sempre pensei nisso e descobri que outras pessoas pensam também, fiquei feliz. Talvez seja verdade. José também descobriu isso; ele sabe sentir as coisas. Entrar na essência da vida: equilibrar-se numa estrela acima da Terra e mergulhar de cabeça – ir até as profundezas mais extremas para sentir o azedume da mônada vital. Nadar de costas no magma do planeta e ver, com olhos humanos, as supercordas. Estamos conectados por fios prateadamente invisíveis?

6 comentários:

Bruna Buesso disse...

Oi Flor!
Adorei o seu blog, passei o dia todo com ele aberto aqui no computador. Achei-o por acaso no busca ao google sobre o livro Gestos de Equilíbrio. Gostei demais, li vários posts e me deliciei.

Queria até te perguntar se você tem sugestão de livro que explique melhor o símbolo Om, e algum livro sobre I-ching.

Obrigada!
Bruna

Flor Baez disse...

Bruna, que lindo! Fico muito feliz em saber que caiu aqui sem querer e gostou do que leu! Muito bom compartilhar com você!

Então, sobre o símbolo Om e a uma grande síntese sobre os símbolos da Índia, eu te aconselho a ler o "Filosofias da Índia", de Heinrich Zimmer. É uma obra bem completa sobre a cultura e filosofia indiana.

Já sobre o I-ching, não conheço muito bem. Não tenho nada para indicar sobre este tema" :(

Bruna, obrigada pela linda visite! Continue por aqui!
Gratidão,
Flor

Bruna Buesso disse...

Obrigada pelas dicas Flor! Com certeza procurarei por este livro que você citou.

Obrigada também pela visitinha ao meu blog ainda em andamento.

Bom, sobre o I-ching darei mais uma pesquisada com calma, tenho até bastante coisa para ler..hehehe

Beijo!
Bruna

Flor Baez disse...

Imagina, Bruna!
Tem um blog chamado Ser luminoso, que está até nas indicações do Páprica, que é maravilhoso e ele tem dicas incríveis de leitura. Eu sempre passo lá para buscar sugestões. É bem provável que ele tenha algo sobre o I-ching.

Beijos

Flor Baez disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lucia Monteiro disse...

Você é um sonho!