domingo, 22 de abril de 2012

Peculiaridades da Arte Indiana



Na Índia clássica não existe arte por ela mesma como sempre foi no ocidente, o artista deve obedecer sistematicamente os cânones que revestem a produção da obra de arte, e assim deve receber dos deuses a inspiração perfeita para por em prática a imagem do inimaginável, após práticas de meditação e yoga que o artista deve se submeter. A imagem serve como um diálogo entre quem contempla e o próprio deus, que é convidado a encarnar na obra depois que ela está pronta[1], fugindo do estereótipo de pura adoração, para uma relação de unidade com o elemento figurativo. Uma cerimônia religiosa é preparada para conceder vida à imagem, que será utilizada como um veículo espiritual. Arte indiana, sobretudo a hindu, assim como em todos os campos sociais e culturais, também foi unificada dentro de um complexo coercitivo, típico da tradição indiana, que visa manter sob controle toda a diversidade, ou mais do que isso: buscar a unidade dentro da diversidade. Assim como as tarefas sociais são regidas pelo dever das castas, a arte também é sempre mantida dentro dos cânones que conduzem sua produção.  Ainda que todo o processo criativo seja completamente distinto da maneira ocidental de viver e fazer arte, a estética indiana teve lentamente sua evolução, que foi marcada pelas transformações sociais e históricas do país, dificultando a sistematização cronológica da arte em si mesma. Seu progresso não foi marcado simplesmente pela questão técnica intencional, mas sim por necessidade de evolução das formas e do pensamento indiano em si, que foi se tornando cada vez mais complexo com a sistematização das filosofias e influências de outros povos.


Toda a influência estrangeira foi de certa forma, “indianizada” pelos artistas indianos, que buscaram reunir todo o manancial de influências dentro da sua cultura, a fim de formar uma identidade artística própria e equivalente a suas crenças e costumes. De certa maneira, eles tentam manter sob controle tudo o que é diferencial com o intuito de causar nos indivíduos a sensação desejada por eles, vide a história de Buda e como a Índia hindu remanejou os papéis simbólicos originários da tradição budista. Após a rejeição por seu sistema filosófico, houve uma inserção do Buda dentro dos avatares de Visnu já antes previstos para encarnar na Terra. É a concretização do famoso ditado “se não pode derrotar seu inimigo, junte-se a ele”. Destaca-se no povo indiano a capacidade de sintetizar as informações e influências vindas do estrangeiro, que apesar das adaptações realizadas para serem inseridas como elementos próprios da Índia, são recebidos com admiração e comoção pública.

O tratado que rege a arte hindu é chamado de Shilpa Shastras, e nela contém todas as regras que devem ser obedecidas pelos artistas.  A obra precisa estar de acordo, pois caso contrário a imagem pode trazer mau presságio. Além de observar os cânones, a artista precisa de um preparo espiritual antes de fazer sua obra. Meditações, recitação de mantras fazem parte do ritual, que irá purificar a sua consciência, tornando-a limpa para receber a inspiração dos deuses.[2] Da mesma forma que o artista ocidental busca no seu repertório intelectual a forma inicial da criação, o artista indiano busca dentro da sua espiritualidade e filosofia de vida dar forma a obra de arte, que acaba ultrapassando a arte em si, se tornando um objeto de culto e veneração, e não apenas com finalidade de apreciação estética. A autoridade do Shilpa Shastras foi aceita de forma unânime, talvez por essas regras terem sido bastante testadas e experimentadas antes de sua aplicação formal. Nesta etapa o devoto restabelece seus laços com as criaturas míticas e místicas, onde mora a sua vontade de retorno a centelha divina de Brahman. Assim como a filosofia indiana tem seu caráter último a transformação e não o acúmulo de informações e conceitos, a obra de arte deve causar uma transformação interior no indivíduo que se dispõe a contemplá-la, daí a necessidade de ultrapassar a esfera material do qual está situada o objeto artístico.


O anonimato é característica peculiar da arte indiana, onde o artista é o personagem de menor importância nesta conexão do sagrado como finalidade última da arte. Foram os mongóis que trouxeram para Índia o costume de assinar as obras realizadas, pois até então, os artistas indianos não visualizavam a importância dessa ação. O objetivo da imagem é auxiliar o devoto na sua meditação e concentração para uma experiência espiritual bem sucedida. Aqui, revela-se um ato de adoração em que a deidade vê o devoto e vice-versa[3]. Essa característica de anonimato da arte também se verifica na dificuldade em identificar os autores das esculturas e painéis artísticos, reforçando o papel secundário do artista que é apenas um instrumento no processo criativo. A arte é vista como uma atividade de cunho coletivo e por isso o artista não deve colher louros individuais, uma vez que há presença de inspirações divinas, de práticas austeras do yoga com o auxílio do seu mestre, etc.

“Não se omite nada, nem o tamanho, nem o contorno, nem as proporções numéricas, nem os gestos: tudo está estritamente determinado. Resta o gênio do escultor ou do arquiteto que podem sempre, dentro dos limites destas regras, criar uma autêntica obra de arte.”[4]



[1] AUBOYER, Jeannine, Mundo Oriental. Editora Expressão e Cultura, São Paulo, 1966.
[2] RIVIERE, Jean. A arte Oriental. Salvat Editora do Brasil, Rio de Janeiro, 1979
[3] ANDRADE, Joachim. Imagens que falam: uma aproximação da Iconografia Hindu. In: Diálogo Revista de Ensino Religioso. Paulinas, São Paulo, 2006
[4] RIVIERE, Jean. A arte Oriental. Salvat Editora do Brasil, Rio de Janeiro, 1979

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