sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O Ócio Criativo



Hoje terminei de ler o livro O ócio criativo, de Domenico de Mais, indicação da amiga Potira que sempre me sugere livros incríveis.  Há um tempo escrevi aqui no blog sobre odesperdício da vida ociosa, talvez hoje teria cortado a palavra ociosa e substituído por outra que ainda não sei bem qual.

Domenico de Masi traça um panorama histórico do trabalho e as modificações que ele sofreu desde o advento da indústria e como o perfil do trabalhador mudou.  Foi na Revolução Industrial que foi separada a vida do lar, do trabalho, o cansaço e a diversão.  Teoricamente o avanço tecnológico deveria proporcionar aos homens mais horas de tempo livre e menos tempo enfurnados em escritórios, mas sabemos que não foi assim que caminhou a humanidade. Hoje parece haver um certo status para quem vive ocupado e não tem tempo para nada. Só o que eu posso fazer é lamentar por essas pessoas e dizer: meus pêsames.

“Há o masoquismo coletivo: nem sempre as pessoas desejam viver melhor e serem mais felizes.”

Prova disso é a esmagadora maioria que perde cerca de 10h do seu dia fazendo algo que detesta sem mover uma única folha sequer para transformar sua situação e investir em carreiras que estejam em mais sintonia com os seus valores.

Obviamente que precisamos de um trabalho, uma remuneração para nos mantermos vivos, desfrutarmos de alguns “luxos” (que significa abundância e não bens materiais), mas isso não quer dizer que precisamos desperdiçar nossas vidas e criatividades trancafiados em escritórios (sejam eles dentro ou fora de casa).  Quem trabalha ou já trabalhou nestas grandes corporações sabe o excesso de pessoas que ficam ali enrolando, bebendo café e fazendo qualquer outra coisa inútil.

“Mais tempo a pessoa passa dentro do escritório, menos produtivo é. Apesar de tudo, para não ter que mudar os próprios regulamentos, a empresa prefere se prejudicar e paga a pessoas que não produzem nada.

Boas idéias geralmente passam longe das paredes frias e cinzas das empresas.  Elas geralmente surgem quando os indivíduos estão relaxados, fora do ambiente de tensão e pressão de resultados.  Talvez vocês concordem comigo, as boas idéias geralmente surgem quando estamos tomando banho, ou quando estamos deitados na cama, antes de dormir.

“Uma pessoa que está no escritório sem nada para fazer adquire, como eu já disse, o péssimo hábito de passar o tempo inventando modos de criar procedimento e regras que dão dor de cabeça aos outros e só prejudicam.”

Domenico de Mais enfatiza o trabalho criativo e intelectivo, e diz que os subempregos (vulgo aqueles moços que ficam apertando botões no elevador) tendem a se dissipar.  E realmente, seria muito mais digno e útil que quem paga um salário para uma pessoa ficar dentro de um elevador, poderia muito bem dar este salário para que ele investisse em estudos ou numa carreira que fosse mais carregada de sentido. É típico desta sociedade pós-industrial que vivemos criar ocupações inúteis, que servem apenas para mudar o status de “desempregado”, para “empregado”.  Ou seja, essas postos de trabalho tendem a acabar com o passar do tempo e haverá mais trabalho para a indústria criativa. Esse é o pensamento do sociólogo.

É obvio que existe um ócio que é alienante, e eu descrevi sobre isso no “Desperdício da vida ociosa”. Pois, indivíduos que nada produzem são inúteis, vazios e entediantes. O ócio criativo é para mentes ativas, fecundas que estão sempre produzindo , crescendo, enriquecendo.  A maioria das pessoas, quando dispõe de tempo livre geralmente não sabe o que fazer com ele e se entedia facilmente, pois foram educadas para seguir regras e prescrições que foram consolidadas num dado momento histórico, que foi na era industrial.

“Preenchendo o tempo com ações escolhidas por vontade própria, em vez daquelas que se faz por coação, como o trabalho de escritório ou na linha de montagem.”

Quando o sociológo Domenico de Masi orienta para que a educação seja voltada para ócio,isso significa educar para que as escolhas sejam dotadas de sentido. “Quanto mais educado você for, um maior número de significados as coisas suscitam em você e mais significado você dá as coisas.”

Ao contrário do que habita o imaginário, este modelo está longe de ser anárquico e contra a produção de riquezas. Ao contrário, ele é favor de uma distribuição mais justa, onde os trabalhadores possam desfrutar de qualidade de vida, tanto no ambiente corporativo, como fora dele. Com o tempo essas duas esferas tendem a se unir, até chegar ao ponto que nossas carreiras serão significativas, flexíveis, mais voltadas para a solidariedade e o bem estar coletivo, do que a acumulação de posses e bens materiais.  Ou seja: "É preciso incluir, no cotidiano, atividades que reúnam o descanso, o lazer, o trabalho e a aprendizagem"
        

Tudo isso talvez soe utópico para as gerações anteriores. Mas pode ser o futuro dos nossos filhos e eu torço muito para isso. 

Leitura indispensável para executivos e intelectuais! 


quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O que fazer quando tudo dá errado?


A vida tem destas coisas: você está animado, cheio de planos, esperançoso em construir algo novo e de repente, kaplaf, caem diversos baldes de água fria na sua cabeça.  Depois de tempos e tempos empenhado numa nova atividade, que expande os horizontes e faz a vida parecer mais bonita, chega a realidade, dura, fria e cheia de cifras colocando obstáculos na sua frente.

Pausa para o café e o bolo de canela (como me sugeriu minha mãe). Sei que para quem tem sonhos a vida tem pressa, queremos tudo neste exato momento, do jeito que planejamos. Mas os desígnios divinos são mais sábios (é o que diz o confortante ditado popular cristão) e sabe se lá porque não é o momento de dar um passo pra frente. Às vezes, dois para trás é o que ajuda a nos dar impulsos.

Mas como aceitar com resignação que este não é momento certo para iniciarmos nossa jornada? Como não estagnar e perder a vitalidade nas pausas que a vida nos impõe?  As vezes nos sentimos impotentes diante de certas circunstancias, mas é preciso ter fé que tudo vai se ajeitar da melhor maneira possível, no tempo mais propício. É isso que eu tento acreditar: TENTO, diga-se de passagem. Pois não há nada mais frustrante do que fazer planos e ver tudo por água abaixo.  É duro ver o tamanho do esforço e nada da recompensa, enquanto outros têm em suas mãos todas as oportunidades do mundo, todas as facilidades, mas optam por permanecer inertes.  Mas é o karma (positivo e/ou negativo) de cada um. O tempo do invisível e o do homem não caminha junto, muito menos de maneira linear.

Resta aquela pontinha de esperança no futuro. Afinal de contas, não aceitar a realidade tal qual ela é só gera mais sofrimento. Neste momento tento me apegar a sabedoria deixada por Buda, que tudo está em constante transformação e o que é uma perda hoje, pode ser um ganho amanhã.  Anicca.


Crises geram oportunidades e nos forçam a sermos mais criativos  para encontrarmos ferramentas que possam colaborar para a construção do nosso sonho. Quando os planos não saem como desenhamos em nossa mente, pode ser um sinal de que tudo pode mudar, que outras coisas possam surgir para melhor (pensamento positivo). Ou não. (Pensamento negativo realista schopenhauriano) 

Enfim, é sempre frustrante, mas a vida tem dessas coisas. Aceitar é o melhor remédio, se acomodar o pior veneno. 

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Sobre a arte de viver, Roman Krznaric



Sobre a Arte de Viver, do autor Roman Krznaric já entrou na minha lista de melhores livros. Sua didática e o fluxo da sua narrativa são de prender a atenção até dos leitores mais desavisados.  Traçando um panorama sobre relacionamentos, família, empatia, dinheiro, tempo, morte, sentido e trabalho, somos convidados a dar um passeio pela história da humanidade e suas questões existenciais, provocando reflexões inúmeras e muito frutíferas.

No capítulo sobre relacionamentos, Roman Krznaric fala sobre as diversas formas de amor, da philia ao ágape e como podemos torná-los mais amadurecidos, sem expectativas, fantasias e exigências mirabolantes e inalcançáveis.

“É assombroso quão pouco podemos saber sobre pessoas que aparentemente conhecemos a vida a toda”.

“Conhece-te a ti mesmo, aconselhou Sócrates. Para seguir esse credo é preciso mais do que contemplar, como Narciso, nossos próprios reflexos. Devemos equilibrar a busca introspectiva com uma atitude mais “outrospectiva” em relação à vida. Para descobrirmos a nós mesmos, temos de sair de nós e descobrir como outras pessoas pensam, vivem e veem o mundo.”

Se colocar no lugar do outro é um exercício que pode proporcionar mais consciência e nos despertar para coisas adormecidas.  Sair dos diálogos frívolos sobre o tempo ou futebol, pode fortalecer nossas conexões humanas e mudar nossa visão do mundo.  

O capítulo sobre trabalho merece um post a parte, tamanho sua magnitude. Acho fascinante estas novas formas de sustentar e como podemos sentir realização pessoal quando fazemos aquilo que nossa alma vibra. Roman enfatiza que você pode ter múltiplas carreiras e praticar a arte dos generalistas. “A especialização excessiva é uma armadilha que nos impede de fomentar de maneira plena toda a gama de nossas habilidades.” Os homens podem fazer todas as coisas, se quiserem.  Basta força de vontade.

Escrevi sobre especialistas x generalistas aqui! Dê uma lida! É bem interessante.

Sobre A arte de Viver, da Editora Zahar, é um livro dinâmico, cheio de fluxo, que passeia por diversos temas, como natureza, viagem, dinheiro,tempo, sentido. Leitura essencial! Segue alguns trechos marcantes! 

“Você poderá preparar para si mesmo as mais excelentes refeições gourmet noite após noite, mas acabará desejando que mais alguém sente à mesa a seu lado, seja essa pessoa um amante, um amigo ou um estranho com uma história para contar.”

“A excessiva autorreflexão e contemplação do próprio umbigo podem ser prejudiciais, levando à confusão emocional e à paralisia. Sua abordagem da obediência máxima de Sócrates “Conhece-te a ti mesmo” não consistiu em ruminar sobre o estado da sua alma, mas em lançar-se na vida, cultivando a curiosidade sobre pessoas, lugares, arte e paisagens. O homem só se conhece à medida que conhece o mundo.”

“Ele propunha a idéia romântica de que os seres humanos eram em essência nômades, que só podiam se sentir plenos se estivessem em contínuo movimento.”

“Reduzir o papel do dinheiro em nossas vidas e livrar-nos da dependência dele não significa que picaremos privados de luxos. A palavra luxo vem do termo latino “abundância”. Fomos ensinados a pensar nele em termos materiais – vinhos finos, carros velozes e viagens de primeira classe. Mas podemos também ter uma abundância de relacionamentos íntimos, trabalho significativo, dedicação a causas, gargalhadas incontroláveis e sossego para sermos nós mesmos.”


Você pode comprar o livro aqui: no site da Editora Zahar


quarta-feira, 27 de novembro de 2013

A grama do vizinho é sempre mais verde nas redes sociais!






A grama do vizinho sempre parece mais verde e a piscina dele é sempre mais azul e límpida, por que temos a infeliz mania de olhar para o outro e tecer comparações com a nossa própria vida? Muitos ainda não sabem lidar com o sucesso do outro, sentem um misto de sentimentos que variam de admiração à inveja, que ficam visivelmente estampados nos traços dos seus rostos.

Saborear as conquistas alheias ainda é um verdadeiro obstáculo para muitos, porque eles se sentem tão merecedores quanto o outro. Mas cobiçar bens materiais e qualquer tipo de prosperidade alheia é um jogo perverso da mente que só gera sofrimento.  Não é justo comparar seu valor pessoal baseado na vida de outros indivíduos, pois cada um é responsável por suas escolhas, méritos e louros conquistados.        

Lembre-se que neste mundo sempre haverá alguém melhor do que você, e isso não pode afetá-lo, pelo menos de forma negativa e invejosa. Inferioridade é um sentimento que não deve ser alimentado, pois cada indivíduo é único e possui dons, talentos e bens que lhe são próprios para a sua caminhada.

Em tempos de facebook, em que todo mundo coloca o melhor e o mais fantasioso de si, vendendo uma imagem de extrema felicidade, com fotos de viagens, finais de semana incríveis, festas infinitas e toda a ilusão que high life proporciona, quase impossível não ter alguém que não se deixe levar por essas manifestações efêmeras e extravagantes de que a banda que toca do lado de lá é mais bacana.  Ninguém é vitorioso em tudo o que faz, só que ninguém quer expor suas fraquezas e falhas na sua vitrine.  Chegamos numa época em que parecer é muito mais atraente e popular do que Ser, portanto não caia nesta rede de mediocridade de que as coisas alheias são mais interessantes e que estão todos vivendo um momento de alegria, felicidade, segurança e só você está cheio de problemas, dívidas no banco e questões existenciais a resolver. Lembre-se que ali, logo ali no Facebook, as pessoas colocam os seus melhores ângulos e que 90% das vezes a foto do perfil não corresponde à realidade.

Seja verdadeiro consigo mesmo. Participe do mundo social, mas não creia que a realidade está estampada nas frases de efeito e nas fotos que você vê e diminua os quilos de informação consumida via redes sociais. Uma avalanche de informações triviais, que beira o irrelevante, não fará você uma pessoa melhor ou mais atualizada com as coisas que estão ocorrendo no mundo. 

Cancele o feed de notícias de algumas pessoas e não leve muito a sério quem posta uma foto do seu próprio rosto no perfil e na capa. 


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Da receita mágica dos relacionamentos - Parte II



Estou lendo um livro muito interessante que se chama a Arte de Amar, de Erich Fromm, muito comum encontrá-lo nos sebos da vida a preços bem módicos.  E ele traça diversos panoramas sobre as formas de amar e não amar. Selecionei alguns trechos importantes para refletirmos sobre a arte dos relacionamentos.

"Como normalmente ninguém pode, a longo prazo, corresponder às expectativas de seu adorador idólatra, a decepção tende a ocorrer e, como remédio, novo ídolo é procurado, às vezes num círculo infindável. Característica desse tipo de amor idólatra é, no inicio, a intensidade e subitaneidade da experiência amorosa. Este amor idólatra é muitas vezes descrito como o grande, verdadeiro amo; mas, embora pretenda retratar a intensidade e a profundidade do amor, apenas mostra a fome e o desespero do idólatra."

"O argumento comum dos pais em tal situação (infeliz) é a de que não se podem separar a fim de não privar os filhos das bênçãos de um lar unificado. Qualquer estudo pormenorizado, entretanto, mostraria que a atmosfera de tensão e infelicidade dentro da "família unificada" é mais prejudicial aos filhos do que o seria um rompimento claro - o qual pelo menos lhes ensinaria que o homem é capaz de por termo a uma situação intolerável por meio de uma decisão corajosa."

"Assim experimentado, o amor é um desafio constante; não é um lugar de repouso, mas é mover-se, crescer, trabalhar juntamente; haja harmonia ou conflito, alegria ou tristeza, isso é secundário em relação ao fato fundamental de que duas pessoas se experimentam mutuamente a partir da essência de sua existência, que são uma com a outra por serem uma consigo mesmas, em vez de fugir de si mesmas." 

"O amor fraternal é o amor entre iguais; mas na verdade, mesmo como iguais não somos sempre "iguais"; e por sermos humanos, temos todos necessidades de ajuda, todavia, não significa que um seja desamparado e o outro poderoso. O desamparo é uma condição transitória; a permanente e comum é a capacidade de erguer-se e caminhar pelos próprios pés". 

"Por estar o desejo sexual emparelhado na mente de muitos com a ideia de amor, são eles com facilidade levados à má conclusão de que se ama um ao outro quando se querem um ao outro fisicamente. (...) Se o desejo de união física não for estimulado pelo amor, se o amor erótico também não for amor fraterno, nunca levará à união mais do que num sentido orgíaco e transitório. A atração sexual cria, no momento, a ilusão de união, mas, sem amor, essa união deixa os estranhos tão afastados quanto antes se achavam."

***  

Um relacionamento não se constrói em um único alicerce: não é o sexo que prende, não são as afinidades de pensamento, as condições materiais e financeiras, nada disso pode sustentar uma relação. Ela se finda a partir de uma construção muito lenta que requer paciência  e companheirismo. 

Os dois precisam crescer juntos, que um sirva de ponto de apoio para que o outro possa dar seus frutos, trilhar seu caminho. Dois são um, porém dois ainda são dois. Um paradoxo real.   Não podemos abrir mão de nossas vidas, pois acima de tudo e qualquer coisa, somos indivíduos que tem suas próprias aspirações, desejos e sonhos. 

Amar é uma experiência pessoal, cujo a receita não pode ser dada de igual maneira para todos.  Mas se existe alguns truques que são infalíveis para todos e qualquer tipo de relacionamento é dominar a arte da paciência, de saber ouvir atentamente as pessoas  e levar a sério o que se é dito.  Amar é emergir do narcisismo e da fixação de que somente as suas necessidades devam ser atendidas. Amar é ceder, é encontrar pontos de equilíbrio entre os desejos de cada um.  

E uma pessoa sozinha não pode salvar.  Nas crises, só há salvação quando os dois estão dispostos a fazer avaliações criteriosas sobre os seus erros e o que podem mudar daqui pra frente, que é o que realmente importa. 

O amor vale todas as tentativas.  

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A ditadura da beleza

Vivemos uma época intensamente imagética, onde as pessoas estão muito mais preocupadas em mostrar quem elas são através do seu corpo. Mulheres se afundam em plásticas e horas a fio dentro de academias, ingerindo produtos tóxicos e não aceitando a passagem do tempo e as marcas que deixam o viver.  Como disse meu primo certa vez, em tom de piada, a pessoa faz tanta plástica que quando gargalha o braço levanta.

A mídia é hoje o grande responsável por esta ditadura da beleza, onde gordurinhas extras e qualquer imperfeição devem ser corrigidas a qualquer preço, numa obsessão por estar magra ou gostosa, dois padrões distintos e muito cobiçados por mulheres e homens. O que essas pessoas precisam pensar é que a perfeição é inalcançável, porém quando se está neste estado obcecado fica realmente difícil compreender a submissão estética no qual ela sofre.

A beleza é um estado muito mais amplo e diverso do que mostra a televisão. Olhos azuis, cabelos louros, silicone e tantos outros quesitos são apenas aditivos. Cada pessoa é bela pelo o Ser que ela é, a sua humanidade e coisas que não estão disponíveis na imensa prateleira das salas de cirurgia, muito menos em academias. Ser um objeto sexual valorizado não fará ninguém mais feliz, pelo contrário, apenas atrairá pessoas interessadas em prazeres momentâneos e fugazes.

É claro que sempre haverá coisas no nosso corpo que incomodam, e isso é normal. O anormal é ser obcecado pela perfeição. Do que adianta um lindo frasco cheio de chorume dentro?! Beleza é uma combinação harmônica que vai muito além da forma física. Certamente se as pessoas cuidassem da sua alma e da sua mente da mesma forma que cuidam de seus corpos, o mundo não estaria tão sobrecarregado de óbitos resultantes desta compulsão pela beleza das capas de revistas e campanhas publicitárias e nem tão cheio de pessoas vazias e fúteis cujo a limitação é o próprio umbigo. 

domingo, 17 de novembro de 2013

O macho tem futuro?



Abaixo segue alguns trechos de um texto incrível do historiador Jaime Pinsky: O macho tem futuro?

***
Enquanto isso, o homem, estimulado a competir desde muito cedo, busca apenas aperfeiçoar suas armas para "vencer", a qualquer custo. Todos temos amigos e conhecidos que nao leem a não ser o mínimo necessário para melhorar o desempenho de suas tarefas profissionais. O resultado são pessoas desinteressadas e desinteressantes, incapazes de se relacionar com seus iguais num nível um pouco mais alto. 

[...]

Dá uma enorme tristeza ver profissionais competentes, mas culturalmente despreparados, que não sabe, curtir um bom concerto ou um bom livro. Por outro lado, usam a emoção para ver filmes banais e escutar música piegas. Não, não se trata de gosto, apenas. Cultura se aprende e gosto se burila. Como é que um executivo, que conhece as patifarias da sociedade de massa, pode se deslumbrar com produtos da indústria cultural concebidos e produzidos por marqueteiros e divulgados a custa de jabaculês?

[...]

O acesso a bons filmes talvez possa evitar o processo de infantilização de adultos (comédias idiotas, desenhos elementares, personagens sem conteúdo). Visitando bons museus, as pessoas estabelecem um contato mais estreito com importante parcela do patrimônio cultural da humanidade preservado nesses espaços. A boa música, popular ou clássica, ajuda a desenvolver a sensibilidade. 

[...]

Nós, homens, agimos como nossos pais (e avós): acreditamos que a manifestação de afeto podem ser expressas materialmente. Entupimos nossos filhos de brinquedos em troca do carinho que não encontramos tempo em oferecer. Destinamos a nossas mulheres flores, jóias, e jantares caros como substitutos de conversas inteligentes, amor e sexo. São soluções pobres, de machos desorientados. Que estão correndo grande risco de perder a hegemonia. 

Por que gostamos de História? - Jaime Pinsky

***

Acredito que toda a situação vá muito além de questões de gênero e status social. Esta infantilização do adulto, da massificação da indústria do entretenimento atinge a todos, praticamente de igual maneira, salvo a algumas raras exceções. É comum ver pessoas que tiveram todas as oportunidades do mundo, material e culturalmente, e continuam estagnados dentro do mesmo patamar, ainda que acreditem que estão evoluindo, assistindo os mesmos programas na televisão, lendo romances puramente comerciais e por ai vai. 

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Os prejuízos do tempo acelerado e perdido





É muito comum quando encontramos um amigo ou conhecido na rua e perguntamos como vai a vida e logo escutamos aquele mantra: -Nossa, estou muito ocupado! É uma correria, não tenho tempo para nada. Estar ocupado hoje é praticamente um status elevado na nossa sociedade, não há quem fale sem orgulho que sua vida é uma correria. Meus pêsames para você, que vive ocupado. Porém a questão não é muito bem essa, de estar ou não. A falta de tempo mata nossos sonhos, solapa qualquer perspectiva de mudanças reais.

Nossas certezas, nossa forma mecânica de viver a vida nos impede de olhar para além da muralha de ocupações que construímos que distraem nossa consciência e estão longe de proporcionar uma vida fascinante. Precisamos avaliar: nossas ocupações diárias enriquecem nossa alma?  Valorizam o nosso ser? Sacia nossa fome existencial? Certamente não.  Afinal de contas nossos compromissos são tão individuais e substituíveis, que qualquer outra pessoa poderia fazer no seu lugar. Acordamos, levamos as crianças na escola, corremos para o trabalho, chegamos cansados, ligamos a televisão, pedimos uma pizza e antes de dormir ligamos o despertador.  Estamos ocupados para esquecer o tédio.  Disse o filósofo australiano, Roman Krznaric: “Uma explicação mais profunda é que temos medo de que uma pausa prolongada nos dê tempo para perceber que nossas vidas não são tão significativas e satisfatórias quanto gostaríamos. O tempo para contemplação tornou-se um objeto de medo, um demônio.”

Nesta dinâmica do eterno fazer, perdemos o nosso precioso tempo com coisas triviais que não trazem nenhum significado real e talvez estamos tão envolvidos em ocupações para disfarçar o vazio existencial que domina nossa vida.

Ocupe-se com os seus sonhos. Fique ocupado em transformar sua lista de sonhos em realidade, nem que para isso você tenha que talvez cortar ou ajustar alguns itens.  Tenha tempo para ajudar outras pessoas, de participar da vida coletiva. Esqueça as conversas de elevador sobre o tempo, tenha diálogos mais enriquecedores. Podemos fabricar tempos mais preciosos, bastando para isso não nos submeter a esta tirania social de que “estar ocupado” é sinônimo de grandes e enlevadas ações. Não cultue a velocidade, o tempo está longe de ser um fenômeno natural; na verdade ele é fabricado para que a economia possa nos explorar e controlar de forma mais fluida, sem que você perceba que é um escravo do relógio, da rapidez, do excesso de movimentos sem sentido. Adote um ritmo mais suave de sorver sua existência.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Sobre o poder transformador das viagens





Acredito que todas as pessoas têm um desejo latente de conhecer algum lugar, mas para a maioria das pessoas, nem sempre empreender uma viagem é um sonho tão viável no plano material.  Sempre existe um destino pessoalmente significativo que nos remete à fonte ou a origem de alguma coisa que seja importante, uma ida a terra natal ou mesmo a terras muito distantes. 

Viagens são sempre oportunidades para não só aproximar culturas, como também ampliar nossas visões de mundo, seja pelas diferenças sociais ou pelas adversidades que enfrentamos durante a jornada, que sem dúvidas são fontes preciosas de autoconhecimento, um verdadeiro rito de passagem que desafia não só as fronteiras geográficas, como as nossas fronteiras interiores. 

Muitas vezes traçamos planos magníficos, separamos mapas, definimos com antecedência o roteiro, e de repente se torna mais significativo abrir mão de tudo isso e viajar como um peregrino, onde as motivações menos pragmáticas tornam o próprio caminhar uma experiência cheia de desafios e propósitos mais elevados. 

Eu pude vivenciar uma viagem que foi a verdadeira realização de um sonho, em 2012 conheci a Índia, um lugar onde sempre me fascinou pela sua cultura e sua arte, e poder olhar de perto tudo aquilo que eu lia nos livros foi sem dúvida uma das experiências mais significativas da minha vida, e espero realmente poder retornar um dia, pois a sensação que eu tive quando desembarquei pelas bandas de lá é que eu estava realmente retornando no berço da humanidade, na terra natal da minha alma. E neste processo desenvolvi um desejo latente de conhecer o mundo. 
Como disse Blaise Pascal “Nossa natureza consiste em movimento; a completa calma é a morte”.  Viajar de férias é bom para descansar o corpo, relaxar. Mas à primeira vista, explorar como um nômade uma cultura e presenciar seus costumes, adentrar em outro universo cultural é muito mais encantador, mesmo que para isso você tenha que abrir mão de certo conforto e enfrentar alguns percalços materiais e existenciais no meio do caminho. 

Qual é o destino do teu sonho?

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Reflexão de segunda





Hoje é segunda-feira e tenho certeza que maioria das pessoas está cansada, desanimada e contando os dias para chegar sexta-feira. Mesmo no auge do meu inferno astral, me pergunto: até quando vamos levar uma vida em que o propósito seja esperar o fim de semana para que enfim possamos fazer aquilo que deveríamos fazer diariamente?! Há um certo mito social acerca da segunda-feira que precisa ser extinto. Todo dia é dia de ser feliz.

Segunda-feira pode ser mais especial com uma xícara de café ou chá, uma conversa gostosa com um amigo, um passeio no parque na hora do almoço, uma visita a livraria ou mesmo com uma breve contemplação do céu nublado. Nós damos o que queremos, fazemos o que queremos – temos total autonomia das nossas escolhas, portanto escolha ser feliz hoje, segunda-feira.