terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Clube do Livro: Milagrário Pessoal, de Agualusa


Milagrário Pessoal, do escritor angolano José Eduardo Agualusa, é daqueles livros que é bom você ler num dia só e não perder o fôlego. Os diálogos fascinantes despertam uma vontade imensa de mergulhar na história, sentar na varanda e ouvir de pertinho cada palavra dos personagens.

O livro conta a história de uma linguista cujo trabalho é recolher as novas palavras que surgem diariamente na língua portuguesa. Até que ela percebe que alguém está subvertendo a língua propositalmente inserindo neologismos de forma inescrupulosa, e pede ajuda de um professor. No meio dessa busca pelo o que de fato está acontecendo com o idioma os dois tem um breve romance, mas sem dúvidas o amor mais bonito que o livro conta é o dos personagens com a língua portuguesa. O que acontece entre eles pode passar como um leve e fluido pano de fundo, pois o mais envolvente é essa paixão que ambos nutrem, cada um da sua forma, pelo português e suas nuances e transformações.

O que é Milagrário Pessoal?! O professor tem um pequeno diário que ele escreve todos os dias os milagres que acontecem na vida dele. Daí veio o título do livro. Das coisas mágicas que acontecem no nosso dia a dia e nós não damos a menor importância, deixamos que passe despercebido.

Os diálogos são verdadeiras poesias que enchem nossos olhos e abrem nosso apetite de ler mais, de conhecer e sentir esse mesmo amor. Agora já estou com outro título do autor chamado "Um estranho em Goa" que vou começar a leitura a qualquer momento.

É claro que eu separei alguns trechos do Milagrário Pessoal para transcrever aqui.

"Há infinitos instantes, explicou. Neste eu estou um tigre. Tu, um homem. Noutro tu estás um tigre e eu um homem. Num seguinte estou eu uma larva e você pássaro que me devora. Estás depois um peixe e eu o pescador. Nada existe que não possa ser a cada momento algo diverso."

"As palavras, como os seres vivos, nascem de vocábulos anteriores, desenvolvem-se e fatalmente morrem. As mais afortunadas reproduzem-se." 

"Entre as palavras recém-nascidas, a taxa de mortalidade é elevada. Muitas padecem de graves defeitos congenitos. São frágeis, mal respiram, não resistem ao duro processo da seleção natural."




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