quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Bastar a si mesmo

 
Hoje vou escrever sobre um livro muito especial que eu li ontem a noite chamado "Bastar a si mesmo", do filófoso alemão Schopenhauer, um incompreendido. Há quem veja em sua filosofia somente um conjunto barato de aforismas pessimistas e intempestivos, mas seus pensamentos vão muito além dessa superficialidade e rótulos, é preciso lê-lo para compreender e pescar o sentido de suas palavras.

É inegável que o homem, ou pelo menos a esmagadora maioria, tem sua natureza completamente voltada para a sociabilidade. É dentro desse conjunto de diversidade humana que toda a atuação da nossa vida se desenrola. Desde crianças somos preparados, ensinados e estimulados a vivermos em sociedade, respeitar suas leis e regras e aceitar sua dinâmica fluída e superficial sem fazermos grandes questionamentos e reflexões.

Criamos ao longo da nossa jornada milhares de vínculos e necessidades sociais e buscamos a satisfação e gozo dos sentidos nos relacionamentos inúmeros que criamos. Bastar a si mesmo, como já diz o título do livro, segundo Schopenhauer, é o caminho para evitar o sofrimentos e aborrecimentos, sendo a qualidade mais favorável para a felicidade.

Quando não se busca no outro e sim em si mesmo a realização evitamos todos os tipos de desgosotos e decepções, pois não há nada mais seguro do que depender apenas de você. Não é certo e nem justo esperar encontrar no outro o manancial de felicidade, ninguém pode ser responsável por isso.

"Nenhum caminho é mais errado para a felicidade do que a vida no grande mundo, às fartas e em festanças (high life), pois, quando tentamos transformar nossa miserável existência numa sucessão de alegrias, gozos e prazeres, não conseguimos evitar a desilusão; muito menos o seu acompanhamento obrigatório, que são as mentiras recíprocas."

Quem busca nos excessos, em festas e aglomerações a alegria de viver encontra apenas mentiras, ilusões e falsa sensação de felicidade, já que esses momentos possui uma duração tão efemera quanto perniciosa.

Como disse o filósofo Luiz Felipe Pondé em sua coluna:  "A maioria das pessoas quer apenas comprar, divertir-se, ter uma  autoestima alta, gozar livremente, não sentir culpa alguma; enfim, ter  uma vida moral de criança de dez anos de idade."

Segundo Schopenhauer, os indivíduos que se refugiam nesses conglomerados humanos na verdade estão fugindo de si próprios, já que a solidão se apresenta a essas pessoas como um sinônimo de fardo, insatisfação, tédio, tristeza e uma sensação de vazio interior.

"Pois, na solidão, o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grande espírito, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é."

É quando você está sozinho é que experimenta o paraíso ou inferno de ser você mesmo. "A monotonia do seu próprio ser os torna insuportáveis para si mesmos. Apenas juntos e pela sa união é que constituem alguma coisa."

O homem que basta a si mesmo tem dentro de si um pequeno mundo autossuficiente. Impossível não fazer uma conexão com a vida do ermitão, dos sábios ascetas que renunciam a vida  do 'mundo' em busca de um ideal superior. Schopenhauer bebeu da fonte da filosofia Oriental, percebe-se claramente nesses aforismas destacados, e os adaptou à sua realidade e mentalidade Ocidental.

O filósofo ensina a sermos cuidadosos em nossas relações sociais, prudentes no falar, independentes e seletivos na escolha das companhias, já que a nossa vida em sociedade  "nos põe em contato com seres cuja maioria é moralmente ruim e intelectualmente obtusa ou invertida." Em seus discursos, Schopenhauer salienta a importância da qualidade em detrimento da quantidade, pois relações que são travadas em diálogos banais tendem a não contribuir para o engrandecimento do ser, e sim ao contrário, influencia e rebaixa o nível intelectivo.

Mas Schopenhauer ta mbém destaca as desvantagens e inconvenientes da vida solitária, que é facilmente reconhecido por quem naturalmente passa a maior parte do tempo sozinho: a solidão acaba por tornar-nos mais sensíveis, "que nos sentimos incomodados, afligidos ou feridos por quaisquer acontecimentos insignificantes, palavras ou mesmo simples gestos; enquanto quem vive no tumulto do mundo nem chega a percebê-los."

Como não somos ermitões e vemos inúmeros obstáculos e dificuldades de levar uma vida reclusa, Schopenhauer aconselha de forma muito semelhante ao sábio indiano Paramahansa Yogananda, que diz que para estarmos no mundo sem pertencermos  a ele. Mas como?! Fortificando nossa indiferença perante as opiniões e influências alheias e a carregando dentro de nós, aonde quer que estejamos, seja na caverna ou nos salões de festa a nossa fonte de solidão, para que mesmo diante do tumulto do dia-a-dia da vida, mantermos acesa a chama inabalável da tranquilidade interior.

"Nesse sentido, pode-se também comparar a sociedade a um fogo, no qual o indivíduo inteligente se aquece a uma distancia apropriada, e não como um insensato que mete as mãos dentro dele e, após ter-se queimado, foge para o frio da solidão, lamentando-se de que o fogo queima."

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Retroceder


Não existe retorno e não existe necessidade de retornar. Você precisa ir pra frente, e não para trás. 

Repetidamente você pensará em como retornar. Não existe retorno e não existe necessidade de retornar. Você precisa ir para a frente, precisa atingir sua própria luz, e isso pode ser feito. Não há possibilidade de retornar, e , ainda que houvesse, a mesma experiência não o satisfaria mais. Ela seria apenas uma repetição - ela não lhe daria a mesma excitação, pois a excitação estava em sua novidade. Agora, a mesma experiência não lhe daria qualquer alegria. Você diria: "Isso eu conheço, mas o que existe além disso? O que tem de novo nisso?" E, se ela repetir algumas vezes, você ficará entediado.

Você precisa ir para a frente, e a cada dia existem novas experiências. A existência é tão eternamente nova que você nunca terá novamente o mesmo vislumbre. Ela tem tantos milhões de aspectos que a cada dia você pode ter uma nova visão - portanto, por que se preocupar com o velho? Não há necessidade. 

(Osho. 365 meditações diárias. São Paulo: Verus Editora, 2003. p. 264)

Quantas vezes durante minhas quedas pensava e matutava aonde eu poderia retornar, encontrar um atalho que me levasse de volta àquele estado desperto que eu vivenciava antes. Fruto de longas conversas com uma amiga e muita reflexão e jamais encontrei o caminho de volta, mas encontrei esse texto do Osho que caiu como uma luva. 

Primeiro que na vida espiritual, na vida interior não existem atalhos. Seria uma ilusão se alguém afirmasse isso. A jornada é longa, ora cansativa, ora cheia de vigor e energia. Precisamos é de disposição , entusiasmo e sentido para permanecermos nela. 

Seguimos em frente, sempre em frente. Aceitando as experiências que chegam e crescendo junto com elas sem cair de na ilusão do retorno. Não há retorno, somente uma eternidade de pontos de partida.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A ausência dos ritos de passagem na atualidade



  A função do mito dentro das sociedades tribais foi de auxiliar as pessoas nos rituais de passagem, a situá-las da sua nova condição, do próximo papel que ela terá de desempenhar. Os meninos quando precisam crescer e se tornarem homens passavam por isolamentos, circuncisão e outros rituais que ajudassem no processo de esquecimento da infância e amadurecimento para a vida adulta. Já as meninas têm o seu rito de passagem quando chega a primeira menstruação, um processo mais “natural”, mas não menos efetivo.  Daí começam os preparativos para a próxima etapa da sua vida: o casamento, a maternidade e por ai vai. 

Esses ritos de passagem são bastante dramatizados, mas com o intuito de que a morte da infância ocorra e possa florescer o nascimento do adulto, da responsabilidade. Na vida passamos por diversos ciclos, do nascimento, infância, juventude, vida adulta, que é bastante complexa e envolve uma série de obstáculos que precisam ser constantemente superados. E ai entram os mitos, para ajudar o indivíduo na compreensão desse processo e reafirmar sua identidade dentro do corpo social. E quando não temos mais os grandes mitos e os grandes rituais de passagem para nos auxiliar? Como fazemos em pleno século XXI? Quais são os nossos mitos? Como enfrentamos esses processos de transição de papéis?

Uma das maiores perdas que o homem sofreu foi dos seus ritos de passagem. A modernidade solapou a importância disso, relegou as histórias mitológicas como meras e simples histórias de entretenimento e não colocaram nada tão eficiente e grandioso no seu lugar, deixando as pessoas perdidas quanto aos seus papéis e até mesmo prolongando a infantilização no homem adulto, que leva muito mais tempo para amadurecer e se conscientizar das suas responsabilidades. Uma menina, sei lá, com seus 16 ou 17 anos que engravida e de repente precisa amadurecer, precisa se tornar uma mulher e não consegue, não só porque atropelou etapas importantes e continua se comportando como criança. Duas crianças. O tempo passa, os anos correm e a pessoa ainda não se conscientizou completamente do seu papel.  A ausência dos rituais de passagem acaba por prolongar a infância e dificultar à adaptação da dura realidade da vida.
Queria poder encerrar o texto falando sobre a possível solução para o impasse, mas eu não conheço. Talvez uma boa alternativa para nos ajudar nessas transições de papéis seja a leitura das narrativas míticas. Mas se você souber, me fala!

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Alunos-clientes e a falência da educação


Este mês fomos presenteados com uma excelente matéria de capa da Revista Filosofia, Ciência e Vida, do professor Renato Nunes, sobre a crise na educação e na família – a mercantilização do ensino. Leitura obrigatória para pais, educadores e curiosos.

Com o proliferação indiscriminado das instituições de ensino, a educação que deveria ser uma ferramenta no combate a alienação e a ignorância, se tornou através do nosso sistema capitalista mais um negócio cujo objetivo final é somente o lucro, em detrimento da formação de qualidade do aluno. É cada mais fácil ingressar nessas instituições: provas agendadas, online, em casa, um manancial de facilidades são oferecidos para atender as necessidades absurdas dos “clientes.” O resultado disso é o que vemos por ai, sem precisar ir muito longe, milhares de pessoas “diplomadas” que não sabem pensar, falam e escrevem errado e continuam da exatamente da mesma maneira como entraram, só para citar alguns parcos exemplos.

Como o estudante da era pós-moderna não é exigido academicamente por sua instituição, ele acaba por perder qualquer parâmetro avaliativo em sua intelectualidade, enfraquecendo sua capacidade de pensar, tornando-se um indivíduo alienado em um espaço cultural que deveria justamente promover o progresso da sociedade em suas expressões intelectuais, econômicas e materiais.”

Um dos grandes problemas é que o próprio aluno hoje ingressa numa universidade/faculdade não com o objetivo de obter conhecimento , realização e aprendizado, e sim busca  um pedaço de papel chamado diploma, que ainda assim não garante uma colocação no desumano universo “mercado de trabalho”.  Para esses indivíduos basta tornar-se um profissional competente. São os alunos-clientes que vão apenas sentar nas cadeiras ou fazer apenas do espaço universitário um meio de fortalecer sua vida social e não absorvem nada do que é ensinado, se entedia facilmente das aulas e não tem nenhuma concentração.  Estão ali simplesmente para obter uma titulação cujo mérito é impróprio.  Considerando inclusive uma afronta intelectual quando um professor utiliza um conjunto de palavras alheias ao seu limitado mundo semântico.”

“O imaginário social infelizmente reforça tal dispositivo, exigindo do professor a capacidade de se metamorfosear em um animado de auditório, com a única diferença, que, ao invés de haver a distribuição de prêmios, se anseia pela distribuição indiscriminada de pontos para a satisfação dos alunos.”

E a nossa educação se tornou apenas mais um braço de exploração comercial. Nos orgulhamos do número de vagas, cursos e estabelecimentos oferecidos,  dos programas do governo federal que ampliam e facilitam o acesso das pessoas às instituições de ensino, como se não fosse necessário preencher quesitos básicos fundamentais para iniciar nesta trajetória, se não o aprendizado não acontece. 

Nessa ilusão de números que os meios de comunicação nos vendem acabamos por não perceber o quão falida estão as estruturas da nossa educação. Estamos emitindo aos montes somente diplomas e não pessoas mais críticas, mais conscientes e reflexivas.  

A culpa é de quem?

"Na sociedade contemporânea percebe-se a tendência da família fragilizada em suas bases morais transferir a responsabilidade formativa dos jovens para a escola e seus educadores, que ficam assim sobrecarregados em suas funções pedagógicas. Os jovens, cada vez mais infantilizados pela sociedade do consumo, consideram o espaço educacional apenas um local de lazer, um ponto de encontro; não se realizam existencialmente em seus estudos cotidianos, considerando a vida estudantil um enfado insuportável. A transformação do estudante em um consumidor que deve ser satisfeito como o cliente preferencial solapa a respeitabilidade pelo professor, imputado como o culpado por todo o fracasso pedagógico do estudante desprovido de qualquer senso crítico em sua existência medíocre. De onde a juventude alienada reproduz esse comportamento clientelista? Certamente da sua própria vida domiciliar, graças a inépcia educacional de pais autoritariamente frouxos, preocupados acima de tudo com a manutenção de seus status quo e suas viagens de fim de ano como autogratificação por sua dedicação exaustiva ao mundo do trabalho.”

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Clube do Livro: O Poder do Mito, Joseph Campbell



 O livro “O Poder do Mito”, de Joseph Campbell é daqueles que tiram nosso fôlego e nos faz sentir que estamos interligados com todas as coisas desse universo, da ancestralidade a tudo o que um dia ainda haverá no futuro, mesmo que não estejamos fisicamente presentes.  Cada capítulo é inspirador e enche nosso coração de leveza, satisfação, plenitude e algumas vezes eu me sentia literalmente voando pela história. 

Os mitos são o ponto de partida para a busca do autoconhecimento e do sentido de estarmos vivos, atuando temporariamente dentro da eternidade. Joseph Campbell fala sobre o papel da religião, do inconsciente, dos rituais de passagem, das metáforas que cerceiam nossa vida em comum, sacrifício, a jornada do herói e por ai vai. 

Fruto de uma série para a televisão, o livro tem um formato de entrevista que é conduzido pelo jornalista Bill Moyers, que conduz de forma um pouco rasa e superficial em minha opinião, mas se tratando que o grande protagonista é o Joseph Campbell, todos os deslizes de Bill Moyers são facilmente ofuscados pela esplêndida sabedoria de Campbell. 

Um dos capítulos que mais me emociona é o “Sacrifício e Bem-Aventurança”, que traz para a nossa vida a mesma importância que o herói dos enredos míticos precisa enfrentar para encontrar seu caminho, realizar o seu objetivo e o sentido de sua vida. Somos desta forma convidados a encarar a responsabilidade de trilharmos nossa jornada e enfrentar no caminho os mesmos obstáculos que estas figuras míticas encararam em prol da auto-realização e a transcendência desde os primórdios da história. 

Existem livros que informam, outros que transformam. Ler Joseph Campbell e poder se deleitar com sua sabedoria, humildade e suavidade é sem dúvidas uma das experiências literárias mais enriquecedoras que podemos ter. Recomendo a leitura pelo menos uma vez por ano, para que a gente não se esqueça que o centro da montanha é onde estamos. 


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

O Caminho da Bem Aventurança

  Você é pequeno, criança, cheio de fantasias e sonhos que na maioria das vezes são encarados pelos pais como qualquer coisa juvenil, sem importância. E são nesses grandes sonhos que moram nossa bem aventurança, que se fossem identificados, estimulados, apoiados pelos pais e dado as ferramentas necessárias o resultado seria o afloramento/aperfeiçoamente de um dom. Daquilo qu jaz dentro de nós e que tem vida própria, e pode se desenvolver se assim for trabalhado.

Por mais que esse dom seja invisível aos seus olhos, não adianta, todo mundo temum, mesmo que não tenha descoberto ainda. E quando temos a plena consciência do que é este dom podemos trabalhar ardua e serenamente por toda a nossa vida sem nos darmos conta que estamos realmente trabalhando.

Mas o problema é por que não conseguimos descobrir o nosso dom? Porque quando deveríamos ter somente investido nossa força e energia naquilo que sentíamos prazer em fazer, a sociedade inteira (educação, meios de comunicação, família e todas as insitutições sociais) nos fizeram acreditar que o mais importante é ser bem sucedido, sempre. Ter sucesso, obter lucros. Só que um dia descobrimos que abrimos mãe da nossa felicidade e bem aventurança em prol de uma vida sem sentido, estressante, frustrada. Que espécie de vida é essa? Que sucesso é esse você conseguiu abrindo mão dos seus sonhos e não fazendo o que sua alma deseja realmente?

O resultado isso é o que vemos por aí bastando olhar para o lado: pessoas que odeiam o que fazem,insatisfeitas, que ficam aguardando ansiosas para fazer no fim de semana aquilo que poderiam fazer a vida inteira.

E qual seria a solução para o impasse? Descubra o que faz sua alma vibrar, se esforce, mas esteja preparado também para ter dias ruins (antes dias ruins do que acumular anos de frustração e sofrimento), improdutivos, por que nem tudo está fadado ao sucesso e conclusão não quer dizer coroamento. Assim é a  vida.

Não deixe que o desviem do seu caminho. Todo mundo tem planos para você, eles julgam saber o que é melhor pra sua vida, mas não sabem e jamais saberão.  É isso que Joseph Campbell quis dizer nas Reflexões sobre a arte de viver. Quando souber aonde mora sua bem aventurança, agarre-a. Não meça esforços para tornar isso palpável, mesmo que os três mil papagaios te digam que não vai ar certo, tente você mesmo.  E se realmente não ser, tente de outra forma.  Caiu, levantou.  Assim devemos dançar a vida. O que é sucesso para você pode não ser para outra pessoa, cada um tem o seu próprio referencial de satisfação, de felicidade.

"Eu costumo dizer: persiga sua bem aventurança e não tenha medo que as portas se abrirão, lá onde você não sabia que haviam portas." Joseph Campbell


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Da (in)utilidade da conversa



 
O problema real é com as pessoas que falam continuamente e não sabem o que estão dizendo nem por quê. Elas continuam a falar porque não podem parar. Mas, se você ficar um pouco consciente de toda a tolice e do problema que se passa na mente, se você ficar consciente de que nada existe para dizer, de que tudo parece trivial, então você hesitará.

No inicio parecerá que você está perdendo a capacidade de se comunicar – não é o caso. Na verdade, as pessoas não conversam para se comunicar, mas para evitar a comunicação. Logo você será capaz de realmente se comunicar. Espere e não force. Não se preocupe com o silêncio. Você se preocupa, contudo porque toda a sociedade se sustenta sobre a conversa, sobre a linguagem, e as pessoas muito eloqüentes se tornam muito poderosas na sociedade – líderes, eruditos, políticos, escritores. Você fica com receio de estar perdendo o domínio da linguagem, mas não se preocupe. O silêncio é o domínio de Deus, e quando você souber o que é o silêncio, terá algo a falar. 

365 meditações diárias - Osho 

Eu não precisaria dizer mais nada depois de um texto desse, ele em si já é bastante completo.

As pessoas surgem, estão do nosso lado a todo instante, em abundante quantidade a pipocar opiniões, testemunhos, conversas frívolas e os seus pontos de vista sobre a vida. Do que vale todo esse desperdício? São apenas meras opiniões de seres tão perdidos, tão desorientados e envolvidos pela cortina de maya quanto nós. O silêncio, o puro silêncio da vida interior pode mostrar soluções mais inteligentes e lúcidas do que todas as opiniões que foram ouvidas e assimiladas até hoje. Não podemos dar tanta importância a essas conversas, às vezes elas podem intensificar o sofrimento ao invés de aliviar as dores da alma, por mais que a intenção do interlocutor não seja essa. Quantas vezes nos encontramos em estado de confusão mental e dificuldade para realizarmos nossas escolhas por conta do manancial de bobagens que são despejadas dentro da nossa mente ?! Como se não bastasse os diálogos constantes que travamos sozinhos, dentro da nossa cabeça e que nos deixa confusos, há sempre mais pessoas para nos enlouquecer mais um pouco.

É claro que conversar é muito gostoso, quando você está cercado de boas companhias, mas não custa nada colocar um filtro invisível nos ouvidos e relevar as bobagens que nos dizem. É um santo remédio, essencial para vivermos em sociedade sem ser deselegante e grosseiro.

Nesse manancial de humanos escolha aquele que você admira, que você sinta prazer ao escutá-lo, que o seu coração vibre e sinta que existe uma verdade que more ali dentro, mesmo que seja um autor que já morreu. Não dê ouvidos a esses três mil papagaios que vivem e reproduzir o que ouvem por ai, sem jamais ter assimilado o que falam com o que fazem realmente. 

Me Desculpe o desabafo! 

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Clube do Livro: Um estranho em Goa, José Eduardo Agualusa



  Um estranho em Goa foi o segundo livro de José Eduardo Agualusa que eu li, e cada vez mais que o descubro, mais me apaixono. Suas histórias são recheadas de diálogos poéticos e de uma riqueza histórica incrível, que nos provoca durante a leitura uma sensação de sublimação e leveza,  chegamos mesmo a acreditar que entramos na história e também fazemos parte daquele enredo.  

A presente obra é uma miscelânea de ficção com um relato de viagem, aonde vamos conhecendo esse pedaço da Índia colonizado pelos portugueses, a amada Goa. Acompanhamos o processo de descolonização portuguesa do pequeno estado indiano e como isso afetou sua cultura, comportamento e crença.  Os goeses são mais portugueses que os próprios portugueses, mais papistas que o papa e durante a história nos deparamos com uma passagem assim: “A verdade, porém, é que a Índia, tal como existe, é uma criação dos ingleses, da mesma forma que Goa foi uma criação dos portugueses.

José, o personagem principal, que é também o alter-ego do autor, vai à busca de desvendar o passado de um ex-militar, Plácido Domingo, que acaba servindo de ponto de partida para todo o mistério e desenrolar da história, que apesar de ser uma obra ficcional é apoiada em circunstâncias históricas do processo de colonização e como o cristianismo adentrou nas terras do Oriente modificando (para não usar uma palavra mais brusca) a cultura local. 

Não poderia deixar de separar alguns trechos da obra:

“A maior parte das pessoas parecem-nos interessantes enquanto suspeitamos de nos escondem um qualquer segredo. Desvendado o mistério este raramente é mais fascinante que o silêncio anterior a respeito dele.”

"Certos peixes esquecem-se de onde vieram no curto instante que levam a percorrer um aquáqio. O aquário é para eles, dessa forma, um espaço infinito, novo a cada instante, cheio de surpresas e de diversidade. Cada volta que dão parece-lhes uma experiência inédita. Conosco passa-se algo semelhante. A natureza criou o esquecimento para que nos seja possível suportar o tédio deste minúsculo aquário a que chamamos vida."

“O problema é que não basta imitar os gestos de uma águia para conseguir voar.”
“A pontualidade é a pior das virtudes porque nunca há testemunha dela. Às vezes tento atrasar-me mas a ansiedade vence-me e acabo nos últimos minutos por ir a correr.”

“Sabe o que é um judeu? É alguém a quem lembram que é judeu. Provavelmente esses indivíduos não se sentem indianos porque todos insistem em lhes dizer que são portugueses.”

“Os cristãos horrorizam-se com os manipansos africanos, cravejados em pregos, mas prestam culto à imagem de um homem pregado numa cruz.”

“ – Os portugueses, europeus? – Riu-se com mansidão. Nunca foram. Não o eram antes e não o são hoje. Quando conseguirem que Portugal se transforme sinceramente numa nação européia o país deixará de existir. Repare: os portugueses construíram sua identidade por oposição à Europa, ao Reino de Castela, e como estavam encurralados lançaram-se ao mar e vieram ter aqui, fundaram o Brasil, colonizaram África. Ou seja, escolheram não ser europeus.”