terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A ausência dos ritos de passagem na atualidade



  A função do mito dentro das sociedades tribais foi de auxiliar as pessoas nos rituais de passagem, a situá-las da sua nova condição, do próximo papel que ela terá de desempenhar. Os meninos quando precisam crescer e se tornarem homens passavam por isolamentos, circuncisão e outros rituais que ajudassem no processo de esquecimento da infância e amadurecimento para a vida adulta. Já as meninas têm o seu rito de passagem quando chega a primeira menstruação, um processo mais “natural”, mas não menos efetivo.  Daí começam os preparativos para a próxima etapa da sua vida: o casamento, a maternidade e por ai vai. 

Esses ritos de passagem são bastante dramatizados, mas com o intuito de que a morte da infância ocorra e possa florescer o nascimento do adulto, da responsabilidade. Na vida passamos por diversos ciclos, do nascimento, infância, juventude, vida adulta, que é bastante complexa e envolve uma série de obstáculos que precisam ser constantemente superados. E ai entram os mitos, para ajudar o indivíduo na compreensão desse processo e reafirmar sua identidade dentro do corpo social. E quando não temos mais os grandes mitos e os grandes rituais de passagem para nos auxiliar? Como fazemos em pleno século XXI? Quais são os nossos mitos? Como enfrentamos esses processos de transição de papéis?

Uma das maiores perdas que o homem sofreu foi dos seus ritos de passagem. A modernidade solapou a importância disso, relegou as histórias mitológicas como meras e simples histórias de entretenimento e não colocaram nada tão eficiente e grandioso no seu lugar, deixando as pessoas perdidas quanto aos seus papéis e até mesmo prolongando a infantilização no homem adulto, que leva muito mais tempo para amadurecer e se conscientizar das suas responsabilidades. Uma menina, sei lá, com seus 16 ou 17 anos que engravida e de repente precisa amadurecer, precisa se tornar uma mulher e não consegue, não só porque atropelou etapas importantes e continua se comportando como criança. Duas crianças. O tempo passa, os anos correm e a pessoa ainda não se conscientizou completamente do seu papel.  A ausência dos rituais de passagem acaba por prolongar a infância e dificultar à adaptação da dura realidade da vida.
Queria poder encerrar o texto falando sobre a possível solução para o impasse, mas eu não conheço. Talvez uma boa alternativa para nos ajudar nessas transições de papéis seja a leitura das narrativas míticas. Mas se você souber, me fala!

3 comentários:

Sissym disse...

Flor,

É verdade. Seja lá qual for a origem de um povo, as tradições estão ano a ano perdendo suas raízes historicas, deixando de lado a importancia do conteúdo carregado na bagagem das gerações seguintes.

Bjs

Flor Baez disse...

É uma pena, né amiga Sissym! Se ao menos conseguissímos substituí-los por outros que fossem tão efetivos, já seria um grande passo.

Mas, assim é a vida, né... Perdendo coisas, ganhando outras...

Beijos,
Paz,
Flor

mattsantiago disse...

Pelo seu texto, imagino que você conhece o trabalho de Joseph Campbell, incluindo a última entrevista dele (aquela no rancho do Geroge Lucas). Eu vi a entrevista ontem, e hoje fiz a mesma pergunta que você fez no final do seu post. Cheguei a uma resposta, pesquisei no Google pra ver se alguém chegou a alguma resposta parecida, e aqui estou eu no seu blog :-).

Enfim, achei a resposta na mitologia mesmo. Na expressão que Campbell diz sempre: Follow your bliss. "Siga sua felicidade". É o impulso que coloca o Herói do Mito na jornada. Na jornada ele encontra o perigo, a "caverna escura" e a morte. Depois ele renasce e retorna trazendo seu Elixir da Eternidade.

Tá na figura do "monomito" se você pesquisar no Google, vai encontrar a imagem da jornada, que é um círculo. Eu pensei que aquele círculo fosse só uma forma "padronizada" de escrever uma história. Mas não faz sentido, porque se o protagonista de uma história que escrevemos já venceu a jornada e voltou, então ele não precisa começar tudo de novo, né?

Aquilo na verdade é uma forma de representar as fases da vida. Como você disse é um ciclo, da infância à vida adulta, da vida adulta à velhice. Aquele círculo do "monomito" tem bem mais informação do que parece.

Se você chegar em outra conclusão me avise! Adorei seu site, Flor. Páprica Doce.