segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Alunos-clientes e a falência da educação


Este mês fomos presenteados com uma excelente matéria de capa da Revista Filosofia, Ciência e Vida, do professor Renato Nunes, sobre a crise na educação e na família – a mercantilização do ensino. Leitura obrigatória para pais, educadores e curiosos.

Com o proliferação indiscriminado das instituições de ensino, a educação que deveria ser uma ferramenta no combate a alienação e a ignorância, se tornou através do nosso sistema capitalista mais um negócio cujo objetivo final é somente o lucro, em detrimento da formação de qualidade do aluno. É cada mais fácil ingressar nessas instituições: provas agendadas, online, em casa, um manancial de facilidades são oferecidos para atender as necessidades absurdas dos “clientes.” O resultado disso é o que vemos por ai, sem precisar ir muito longe, milhares de pessoas “diplomadas” que não sabem pensar, falam e escrevem errado e continuam da exatamente da mesma maneira como entraram, só para citar alguns parcos exemplos.

Como o estudante da era pós-moderna não é exigido academicamente por sua instituição, ele acaba por perder qualquer parâmetro avaliativo em sua intelectualidade, enfraquecendo sua capacidade de pensar, tornando-se um indivíduo alienado em um espaço cultural que deveria justamente promover o progresso da sociedade em suas expressões intelectuais, econômicas e materiais.”

Um dos grandes problemas é que o próprio aluno hoje ingressa numa universidade/faculdade não com o objetivo de obter conhecimento , realização e aprendizado, e sim busca  um pedaço de papel chamado diploma, que ainda assim não garante uma colocação no desumano universo “mercado de trabalho”.  Para esses indivíduos basta tornar-se um profissional competente. São os alunos-clientes que vão apenas sentar nas cadeiras ou fazer apenas do espaço universitário um meio de fortalecer sua vida social e não absorvem nada do que é ensinado, se entedia facilmente das aulas e não tem nenhuma concentração.  Estão ali simplesmente para obter uma titulação cujo mérito é impróprio.  Considerando inclusive uma afronta intelectual quando um professor utiliza um conjunto de palavras alheias ao seu limitado mundo semântico.”

“O imaginário social infelizmente reforça tal dispositivo, exigindo do professor a capacidade de se metamorfosear em um animado de auditório, com a única diferença, que, ao invés de haver a distribuição de prêmios, se anseia pela distribuição indiscriminada de pontos para a satisfação dos alunos.”

E a nossa educação se tornou apenas mais um braço de exploração comercial. Nos orgulhamos do número de vagas, cursos e estabelecimentos oferecidos,  dos programas do governo federal que ampliam e facilitam o acesso das pessoas às instituições de ensino, como se não fosse necessário preencher quesitos básicos fundamentais para iniciar nesta trajetória, se não o aprendizado não acontece. 

Nessa ilusão de números que os meios de comunicação nos vendem acabamos por não perceber o quão falida estão as estruturas da nossa educação. Estamos emitindo aos montes somente diplomas e não pessoas mais críticas, mais conscientes e reflexivas.  

A culpa é de quem?

"Na sociedade contemporânea percebe-se a tendência da família fragilizada em suas bases morais transferir a responsabilidade formativa dos jovens para a escola e seus educadores, que ficam assim sobrecarregados em suas funções pedagógicas. Os jovens, cada vez mais infantilizados pela sociedade do consumo, consideram o espaço educacional apenas um local de lazer, um ponto de encontro; não se realizam existencialmente em seus estudos cotidianos, considerando a vida estudantil um enfado insuportável. A transformação do estudante em um consumidor que deve ser satisfeito como o cliente preferencial solapa a respeitabilidade pelo professor, imputado como o culpado por todo o fracasso pedagógico do estudante desprovido de qualquer senso crítico em sua existência medíocre. De onde a juventude alienada reproduz esse comportamento clientelista? Certamente da sua própria vida domiciliar, graças a inépcia educacional de pais autoritariamente frouxos, preocupados acima de tudo com a manutenção de seus status quo e suas viagens de fim de ano como autogratificação por sua dedicação exaustiva ao mundo do trabalho.”

5 comentários:

Fabrício Goulart disse...

É verdade. Há poucos dias escutei de um conhecido, já nos vinte e tantos anos, que eu deveria "aproveitar melhor a vida". O que ele chama de aproveitar é o que estava fazendo: iria perder um semestre de aula porque queria participar de um evento, uma festa na praia, durante alguns dias, com diversas outras pessoas na mesma situação. Não pude deixar de ficar surpreso e pensar em quantas pessoas jovens, mas adultas, como eu, agem com tanta irresponsabilidade na tentiva de perdurar uma adolescência que passou há muito tempo.

Renan Boschetti disse...

Realmente, nossa educação entrou na lógica de mercado, cada vez mais, tudo é consumível, até a educação. Gostei do trecho em que diz "Os jovens, cada vez mais infantilizados pela sociedade do consumo, consideram o espaço educacional apenas um local de lazer, um ponto de encontro; não se realizam existencialmente em seus estudos cotidianos". De fato, se você perguntar à algum jovem o motivo pelo qual ele está cursando o que está cursando, a esmagadora maioria não saberá dar uma justificativa melhor do que o retorno financeiro, ou seja, os jovens não procuram uma realização existencial em seus estudos, eles procuram somente um meio de ingressar no mercado de trabalho e ter recursos para consumir e levar um estilo de vida padronizado. Vivemos a era do "fast".Diplomas rápidos, sem muito esforço, o retorno financeiro e a vida para o consumo. Tudo é consumível, até nós mesmos.

Parabéns pelo blog, conheci através do facebook e virei um leitor assíduo, até me inspirei a fazer meu próprio blog: http://universosimesmo.blogspot.com.br/

Espero que goste.

Flor Baez disse...

Oi Fabrício, é exatamente isso, uma infantilização geral, uma grande dificuldade de amadurecer e aceitar as responsabilidades impostas pela vida. Não que devemos ser adultos rígidos, mas compreender com sabedoria os ciclos que vivemos. A educação hoje é um problema bem complexo, porque envolve a péssima qualidade do ensino oferecido, o despreparo dos alunos e a falta de motivação dos professores.

Abraços,
Paz,
Flor

Flor Baez disse...

Oi Renan,
Acredito que isso tudo acaba esbarrando na última postagem, sobre a ausência dos ritos de passagem. Os jovens de hoje tem mais dificuldade para amadurecer e aceitar as novas responsabilidades, e acabam fazendo da vida inteira uma extensão da sua infância/juventude e desconhecendo as etapas da vida que precisam ser vivienciadas.

Muito feliz que você seja um leitor do blog! Gratidão! E muito sucesso com o seu blog! Vou lá conhecer o teu espaço!

Abraços,
Paz,
Flor

norma disse...

Flor,
Excelente poste. E muito preocupante, pois é dessa 'massa crítica' que sairam, também, os formadores de opinião, da geração sequente...
Boa sorte, Norma