quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Clube do Livro: Um estranho em Goa, José Eduardo Agualusa



  Um estranho em Goa foi o segundo livro de José Eduardo Agualusa que eu li, e cada vez mais que o descubro, mais me apaixono. Suas histórias são recheadas de diálogos poéticos e de uma riqueza histórica incrível, que nos provoca durante a leitura uma sensação de sublimação e leveza,  chegamos mesmo a acreditar que entramos na história e também fazemos parte daquele enredo.  

A presente obra é uma miscelânea de ficção com um relato de viagem, aonde vamos conhecendo esse pedaço da Índia colonizado pelos portugueses, a amada Goa. Acompanhamos o processo de descolonização portuguesa do pequeno estado indiano e como isso afetou sua cultura, comportamento e crença.  Os goeses são mais portugueses que os próprios portugueses, mais papistas que o papa e durante a história nos deparamos com uma passagem assim: “A verdade, porém, é que a Índia, tal como existe, é uma criação dos ingleses, da mesma forma que Goa foi uma criação dos portugueses.

José, o personagem principal, que é também o alter-ego do autor, vai à busca de desvendar o passado de um ex-militar, Plácido Domingo, que acaba servindo de ponto de partida para todo o mistério e desenrolar da história, que apesar de ser uma obra ficcional é apoiada em circunstâncias históricas do processo de colonização e como o cristianismo adentrou nas terras do Oriente modificando (para não usar uma palavra mais brusca) a cultura local. 

Não poderia deixar de separar alguns trechos da obra:

“A maior parte das pessoas parecem-nos interessantes enquanto suspeitamos de nos escondem um qualquer segredo. Desvendado o mistério este raramente é mais fascinante que o silêncio anterior a respeito dele.”

"Certos peixes esquecem-se de onde vieram no curto instante que levam a percorrer um aquáqio. O aquário é para eles, dessa forma, um espaço infinito, novo a cada instante, cheio de surpresas e de diversidade. Cada volta que dão parece-lhes uma experiência inédita. Conosco passa-se algo semelhante. A natureza criou o esquecimento para que nos seja possível suportar o tédio deste minúsculo aquário a que chamamos vida."

“O problema é que não basta imitar os gestos de uma águia para conseguir voar.”
“A pontualidade é a pior das virtudes porque nunca há testemunha dela. Às vezes tento atrasar-me mas a ansiedade vence-me e acabo nos últimos minutos por ir a correr.”

“Sabe o que é um judeu? É alguém a quem lembram que é judeu. Provavelmente esses indivíduos não se sentem indianos porque todos insistem em lhes dizer que são portugueses.”

“Os cristãos horrorizam-se com os manipansos africanos, cravejados em pregos, mas prestam culto à imagem de um homem pregado numa cruz.”

“ – Os portugueses, europeus? – Riu-se com mansidão. Nunca foram. Não o eram antes e não o são hoje. Quando conseguirem que Portugal se transforme sinceramente numa nação européia o país deixará de existir. Repare: os portugueses construíram sua identidade por oposição à Europa, ao Reino de Castela, e como estavam encurralados lançaram-se ao mar e vieram ter aqui, fundaram o Brasil, colonizaram África. Ou seja, escolheram não ser europeus.”


3 comentários:

Bruna Buesso disse...

Parece ser uma obra de ensinamentos grandiosos!

Beijos,
Bruna Buesso

norma disse...

Flor Baez,

Fiquei impressionada com esses 'Josés'. O escriba formalizador das estruturas e o amarrador de fios, o vivente da história. Cada parágrafo por ti selecionado daria uma bela tese. Grata pela indicação.
Boa sorte, Norma

Flor Baez disse...

Bruna, o livro é maravilhoso! Quando tiver oportunidade de lê-lo, faça isso e não vai se arrepender!
Bjs,Paz,
Flor


Oi Norma, obrigada!!! O livro é inspirador, que faz nossa alma cair em deleite!
Bjs
Paz,
Flor