segunda-feira, 29 de julho de 2013

O desperdício da vida ociosa


Esses dias estava conversando com uma amiga sobre nossos trabalhos de home Office e como lidar no dia a dia com a demanda de trabalho, a casa, os filhos, etc. Eu adoro trabalhar desta forma, gosto da liberdade de começar o meu dia trabalhando de moletom durante o Inverno com uma deliciosa xícara de café ao lado. Isso me possibilita cuidar da minha filha, vê-la crescer e participar ativamente da sua criação, sem abrir mão da minha carreira e independência financeira. Claro que tenho planos mais ousados para minha vida profissional em médio prazo e já estou em processo de viabilizar isso e ampliar minhas possibilidades.

A questão é que quando a pessoa não tem uma ocupação, um trabalho, uma atividade, ela acaba perdendo o brilho, se tornando desinteressante. {Imagina uma pessoa que passa o dia inteiro em casa cuidando de filho. O cônjuge chega e o único assunto que eles vão ter é sobre o cocô, o sono, a alimentação do neném. } Longe de mim julgar quem optou conscientemente por ser mãe ou pai em tempo integral, sei o quão trabalhoso isso é. But....o trabalho é uma atividade humana de excelência, e não me refiro a esse padrão capitalista, louco, de quem é workaholic e só sabe falar e se preocupar com o seu trabalho – isso é tão limitador quanto não fazer nada.  Mas a verdade seja dita, você casaria, namoraria uma pessoa que não faz nada?! Certamente 98% responderiam não. Porque a pessoa que tem uma atividade, gosta do que faz, executa com perfeição acaba sendo admirada e tendo mais valor, mais diversidade no assunto, de forma geral tem um brilho que o ocioso não tem.

Desculpa se talvez minhas palavras soaram um pouco arrogante, não é esse o intuito. Não mesmo.  É que a vida é tão curta, tão breve, tudo passa tão rápido que perder tempo com nada é um desperdício imperdoável. 


O objetivo do ocioso deve ser transformar o tempo livre em atividade criativa e produtiva. Vulgo, arrumar o que fazer, que é muito bom para a cabeça e a alma.

Completando o texto com o rico comentário da amiga Aline Corssais:

"Acredito que essa "desocupação" não está relacionada necessariamente com ter ou não um trabalho remunerado, pra mim o que conta é oq vc faz com o seu material interno. Estar ocioso é uma situação privilegiada, que nos permite fazer várias outras coisas interessantes com o nosso tempo: ler, assistir um filme, produzir arte, refletir sobre a vida, conhecer pessoas, fazer yoga, meditar, conquistar o mundo (rsrsrs), aprender a sambar, ouvir Maria Callas... O problema é quando esse "material interno" é desprovido de um desejo ardente de se ocupar de forma criativa e transformadora!!!"

E mais a sugestão perfeita da amiga Camila Castanho! Não sei quem escreveu isso, mas está valendo que é por ai o caminho mesmo:


sexta-feira, 26 de julho de 2013

Mora na Filosofia


Desde que eu me entendo por gente sou fascinada pelas religiões. Lembro de quando eu era criança que ficava pesquisando no Larousse Cultural os deuses indianos e as definições das religiões. Minha mãe é que ficou, ou ainda fica, preocupada com as minhas peregrinações religiosas. Desde muito nova que estou nessa busca, sempre querendo conhecer diferentes práticas, estudar as filosofias, observar os dogmas e de quando em vez mergulhar nessa experiência antropológica incrível que são as religiões.

Escrevo isso ouvindo uns cantos cristãos cantados por jovens paraguaiaos. O sagrado me toca. Acho muito bonito quando vejo uma pessoa envolvida verdadeiramente numa religião. Deve ser gratificante dar a busca como encerrada. Eu até hoje não tive esse privilégio, talvez por ser muito curiosa ou mesmo por não conseguir ajustar minha conduta aos dogmas impostos pelas crenças. Então fico passeando por ai, estudando o manancial das literaturas sagradas, observando as práticas, cantando e dançando. Sei que minha experiência não sera tão válida quanto aos do que realmente se entregaram, mas eu não posso me enganar. Eu preciso ver sentido nas coisas, uma coerência harmonica. Minha religião por enquanto é Vipassana, nunca vi tanta coerência junta. Apesar de não ser uma religião, e sim uma técnica de meditação, foi lá que eu pude experimentar o sagrado, enxergar a Verdade e realmente ter uma experiência mística autêntica.

Claro que um dia eu gostaria de dizer: - pronto, minha busca “terminou” aqui. Terminou entre aspas porque nunca termina, quando você se encontra aí é que começa o mergulho. Mas ao mesmo tempo repudio uma conduta fanática. É bem típico encontrar por ai pessoas que foram completamente cegadas pelos dogmas e atacam todas as diferenças e não conseguem perceber que a diversidade é a maior riqueza que existe, e que nem sempre uma prática que te completa,vai completar o outro. Cada um tem necessidades diferentes e todas as religiões são necessárias para abarcar todos os tipos de pessoas. A salvação não vem apenas da sua religião. Todos podem salvar se o indivíduo estiver disposto a se transformar. “Confissão sem mudança é um jogo.”

Uma vez li um livro que se chamava “Eu estou Ok, você está ok.”, e ele dizia assim: O dogma é inimigo da verdade.” E também: “Esse conceito não pode ser percebido por pessoas religiosas, porque ele só pode ser percebido pelo adulto e muitos entre os indivíduos religiosos são pessoas dominadas pelo pai.” (…) “Paul Tournier diz que a moralidade religiosa substitui a liberadora experiência da graça pelo medo obsessivo de cometer um erro.”



quinta-feira, 11 de julho de 2013

Por que algumas pessoas param no tempo?






Muitas pessoas dizem que nada mais a surpreendem, mas eu ainda tenho a capacidade de me chocar com as coisas/situações/pessoas. A mudança é como um rio que flui sem parar, se você se entregar a correnteza certamente será carregado pela força da mudança, como Heráclito já disse há muito tempo atrás, ninguém se banha duas vezes na água do mesmo rio.  


Existem dois tipos de mudança, uma voluntária e outra involuntária. Elas podem caminhar juntas ou não, depende do estado ou força de vontade de cada um. As transformações voluntárias são aquelas que ocorrem naturalmente, que as próprias circunstâncias da vida induzem o indivíduo a andar, mesmo contra sua vontade. Já as transformações involuntárias são aquelas que nós reconhecemos que precisam acontecer, mesmo que seja com esforço e alguma dose de coragem.


Mas parece que algumas pessoas empacam. O tempo passa, a idade avança e a maturidade não acompanha. Você olha o indivíduo estacionado, fazendo as mesmas coisas ou pior, sem fazer nada. Continuam levando a vida como há 10 anos. As piadas são as mesmas, não tem a menor graça. Simplesmente se entregam para as dificuldades e se recusam a caminhar com os próprios pés, sobrevivem graças a caminhada do outro. 


É sempre bom e gostoso relembrar o passado, os lugares que já estivemos, a pessoa que um dia fomos e já não existe mais, os amigos de antigamente e como era a nossa vida. Porém não há nada mais compensador do que olhar o passado e respirar satisfeito com o que somos hoje. 

Por que algumas pessoas param no tempo? Difícil a resposta exata, já que isso não é um cálculo, é mais complexo do que imaginamos. Mas algumas pessoas parecem ter ficado lá atrás, tão apegadas ao passado que não conseguiram avançar em suas vidas. Continuam contando as mesmas piadas, se comportam como um adolescente de 16 anos, levam uma vida moral de 15, caras e bocas. Oi?! 


Podemos manter nossa jovialidade, vitalidade, aceitando que o tempo passou e que precisamos de novos desafios, fazer a vida andar, caminhar, seguir em frente. Não acho que precisamos assumir uma postura de velha-rancorosa-desacreditada da vida, mas precisamos ter bom senso e entender que agora, finalmente, somos adultos e se comportar como tal. 


Fico boquiaberta como essas pessoas que pararam no tempo não conseguem se dar conta disso. Continuam com a mesma programação de anos atrás, fazendo exatamente as mesmas coisas, ou permanecem sem fazer nada, nem construir um alicerce para se manter. O tempo nos dá a possibilidade de aprimorarmos quem somos, de podar as arestas e evoluir. Evoluir!

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Clube do Livro: Crianças Francesas não fazem manha




Tenho uma filha preciosa, que completa 3 meses no dia 10 de Julho. Foi uma verdadeira revolução na minha vida, de repente você tem que sair do foco minúsculo do próprio umbigo e ir além. Não quero me estender muito, pois vou mesmo falar sobre o livro “Crianças francesas não fazem manha”, da jornalista Pamela Durckerman. O título faz com que muitas pessoas logo torçam o nariz, porque as palavras ‘manha’ e ‘francesas’ provocam uma desconfiança na maioria das pessoas. Eu nem ia escrever sobre este livro aqui, pois o foco do meu blog não é a maternidade em si, mas não resisti.

Cheguei nesse livro por acaso, através da indicação de uma amiga, depois de praticamente dois meses sem dormir, com olheiras que chegavam nos joelhos, exausta, irritada, cansada tudo por conta das noites mal dormidas. O sono da Kalindi era uma caixinha de surpresa e eu nunca sabia o que me esperava mais tarde, então a noite caia e eu já começa a sentir calafrios, um desespero.Devorei o livro em meio tempo e fiquei encantada com a “educação francesa”.

 O único item que não concordei foi com a amamentação. As francesas não costumam amamentar seus filhos, dão sem dó nem piedade fórmulas em pó, isso para não atrapalhar o ritmo da vida. “O leite em pó pode ser pior para os bebês, mas sem dúvida torna os primeiros meses da maternidade bem mais relaxantes para a mãe francesa”. Credo!!! Não sou a favor disso. Acho a amamentação linda e deliciosa. Apesar de ter tido candidíase mamária, leite empedrado, eu insisti e não me arrependo, hoje é uma delícia ver minha filha mamando e me olhando. É um vínculo muito forte, muito bonito. Eu, particularmente, quero amamentar minha filha até 1 ano. Respeito as mães que dão peito para uma criança de 2,3,4 anos de idade, mas eu não vou fazer isso e certamente vou receber comentários agressivos das fanáticas por amamentação. Cada mãe deve saber o que é melhor para o seu filho e a sua família. 

O ponto que mais me animou foi sobre o sono, afinal de contas, como uma criança de 2 meses já consegue dormir a noite toda? As mães francesas ensinam seus filhos a dormir, e sem largar no berço chorando até cansar. Eles chamam de “a pausa”, mas não vou escrever sobre a técnica aqui, ela precisa ser compreendida dentro do seu contexto, mas basicamente você precisa ensinar o seu filho a ter paciência desde bebê. 

“Os estudos que li mostram que, quando uma criança dorme mal, afeta o resto da família, inclusive provocando depressão na mãe e prejudicando o funcionamento geral da família. Inversamente, quando os bebês dormem melhor, os pai relatam que o casamento melhorou e que se tornam pais melhores e menos estressados.” Pura verdade! Eu aqui em casa vivia cansada, irritada, exausta e acabava sem paciência para o meu marido e distribuindo coices gratuitos a todo instante. 

 Sei que comecei a criar a rotina do sono com a Kalindi e tenho tido sucesso, mesmo que ela ainda não consiga ir a noite toda. Ela dorme às 21h, acorda as 4h para mamar, volta a dormir e acorda novamente as 7h30, 8h. O livro ensina que os bebês são capazes de aprender, quando existem adultos dispostos a ensinar. O livro está longe de ser um manual para pais preguiçosos e sim um guia que nos ajuda a compreender melhor o comportamento das crianças e como é importante que elas sejam autossuficientes. Criança precisa de horário, de rotina, assim como o casal também precisa do seu tempo. Hora de criança, hora de adulto. Os pais também precisam de um momento para eles, seja para namorar, ler um livro, tomar um vinho ou meditar. 

Outro ponto super bacana da educação francesa é ensinar as crianças a esperar. Hoje o que mais se vê por ai são crianças cheias de vontades, desejos que precisam ser atendidos instantaneamente se os pais não quiserem presenciar um espetáculo de birra. Faz parte do processo, sempre que a criança pedir algo, deixar esperando um pouquinho que seja. 

***
O livro diz que as crianças francesas comem legumes e verduras sem reclamar, cuspir de volta no prato, e que a hora da refeição não é um martírio penoso e exaustivo. Todos os alimentos são apresentados cem mil vezes se for necessário. O segredo é você oferecer pratos diversos, se a criança não gostou de berinjela, espere, e uma semana depois faça um prato diferente, e se ainda assim não gostou, espere e faça outro prato diferente, até o paladar da criança aceitar. Elas também são envolvidas no preparo das refeições, sempre que possível e existem muitas atividades gastronômicas voltadas para o público infantil, assim eles podem conhecer os alimentos, os sabores, as cores, as texturas e se apaixonar por esse universo gostoso.

“Na França, a mensagem social dominante é que, enquanto ser pai e mãe é muito importante, isso não deve suprimir os outros papéis da pessoa.” É muito comum, sobretudo as mulheres, perderem sua identidade no inicio da maternidade, por estar completamente envolvida nos cuidados com o filho, mas eu acredito que aos poucos seja bom e importante que a mulher vá retomando sua vida, sua rotina e tenha em mente que ela não é somente mãe, ela é mulher, profissional, e por ai vai. Tudo bem que o inicio exija uma pausa, uma dedicação exclusiva, mas, no meu ponto de vista, tão logo se sinta preparada, é importante que a mulher volte com os seus projetos de vida. 

“Tenho duas amigas que não trabalham. Sinto que ninguém se interessa por elas”, diz Daniele. Ela é jornalista, tem 50 e poucos anos e uma filha adolescente. Quando os filhos crescem, qual é a sua utilidade social?” É muito comum ver mulheres que abdicaram de suas vidas para se dedicar ao lar, e tão logo os filhos partem para viver suas histórias elas entram em crises existenciais homéricas porque não conseguem mais ver sentido em sua vida. O que eu percebo, nessas bandas de cá do Brasil, é que as mulheres brasileiras subtendem que ser uma boa mãe é sinônimo de anulação, de martírio e sacrifícios extremos. E se você começa a pensar em soluções para facilitar o seu dia-a-dia, você não é boa o suficiente.

“O que realmente fortifica as mulheres francesas contra a culpa é a convicção de que não é saudável para as mães e para as crianças passarem o tempo todo juntas. Elas acreditam que existe um risco de sufocar as crianças com atenção e ansiedade, ou de haver o desenvolvimento da temida relation fusionnelle, na qual as necessidades da mãe e da criança estão misturadas demais. (...) Se seu filho é único objetivo na vida, isso não é bom para a criança.” E também tem o inverso, que costumo ver dentro do meu ciclo de amizades, de pais que colocam o filho na natação, no judô, na capoeira, no balé, no inglês, no mandarim, no kuduro, no tênis, no escoteiro e a fim de dar mais tempo livre para si. Erro! Inventam mil e uma atividades para as crianças desnecessariamente. Ter a agenda cheia não significa necessariamente que a criança está de fato aproveitando tudo que realiza. 

O livro também fala sobre a disciplina, sobre a autoridade que os pais precisam ter com os filhos, para que eles saibam respeitar e compreender os “nãos” que recebem.  É ruim para a família ter um filho rei. “Sem limites, a criança vai ser consumida por seus próprios desejos.” Não só as crianças, mas qualquer indivíduo que não saiba lidar com a frustração de não ter seus desejos atendidos irá sofrer. 

Enfim. Não moro na França, só fui a passeio e não tinha filhos, então não observava as crianças.  Mas o livro é uma ótima pedida, sobretudo para as mães de primeira viagem, como eu, que tendem a ser mais desesperadas. O melhor é você absorver o que achar importante, descartar o que não for legal e usar a sua intuição de mãe para educar seu filho da melhor maneira possível.