quarta-feira, 27 de novembro de 2013

A grama do vizinho é sempre mais verde nas redes sociais!






A grama do vizinho sempre parece mais verde e a piscina dele é sempre mais azul e límpida, por que temos a infeliz mania de olhar para o outro e tecer comparações com a nossa própria vida? Muitos ainda não sabem lidar com o sucesso do outro, sentem um misto de sentimentos que variam de admiração à inveja, que ficam visivelmente estampados nos traços dos seus rostos.

Saborear as conquistas alheias ainda é um verdadeiro obstáculo para muitos, porque eles se sentem tão merecedores quanto o outro. Mas cobiçar bens materiais e qualquer tipo de prosperidade alheia é um jogo perverso da mente que só gera sofrimento.  Não é justo comparar seu valor pessoal baseado na vida de outros indivíduos, pois cada um é responsável por suas escolhas, méritos e louros conquistados.        

Lembre-se que neste mundo sempre haverá alguém melhor do que você, e isso não pode afetá-lo, pelo menos de forma negativa e invejosa. Inferioridade é um sentimento que não deve ser alimentado, pois cada indivíduo é único e possui dons, talentos e bens que lhe são próprios para a sua caminhada.

Em tempos de facebook, em que todo mundo coloca o melhor e o mais fantasioso de si, vendendo uma imagem de extrema felicidade, com fotos de viagens, finais de semana incríveis, festas infinitas e toda a ilusão que high life proporciona, quase impossível não ter alguém que não se deixe levar por essas manifestações efêmeras e extravagantes de que a banda que toca do lado de lá é mais bacana.  Ninguém é vitorioso em tudo o que faz, só que ninguém quer expor suas fraquezas e falhas na sua vitrine.  Chegamos numa época em que parecer é muito mais atraente e popular do que Ser, portanto não caia nesta rede de mediocridade de que as coisas alheias são mais interessantes e que estão todos vivendo um momento de alegria, felicidade, segurança e só você está cheio de problemas, dívidas no banco e questões existenciais a resolver. Lembre-se que ali, logo ali no Facebook, as pessoas colocam os seus melhores ângulos e que 90% das vezes a foto do perfil não corresponde à realidade.

Seja verdadeiro consigo mesmo. Participe do mundo social, mas não creia que a realidade está estampada nas frases de efeito e nas fotos que você vê e diminua os quilos de informação consumida via redes sociais. Uma avalanche de informações triviais, que beira o irrelevante, não fará você uma pessoa melhor ou mais atualizada com as coisas que estão ocorrendo no mundo. 

Cancele o feed de notícias de algumas pessoas e não leve muito a sério quem posta uma foto do seu próprio rosto no perfil e na capa. 


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Da receita mágica dos relacionamentos - Parte II



Estou lendo um livro muito interessante que se chama a Arte de Amar, de Erich Fromm, muito comum encontrá-lo nos sebos da vida a preços bem módicos.  E ele traça diversos panoramas sobre as formas de amar e não amar. Selecionei alguns trechos importantes para refletirmos sobre a arte dos relacionamentos.

"Como normalmente ninguém pode, a longo prazo, corresponder às expectativas de seu adorador idólatra, a decepção tende a ocorrer e, como remédio, novo ídolo é procurado, às vezes num círculo infindável. Característica desse tipo de amor idólatra é, no inicio, a intensidade e subitaneidade da experiência amorosa. Este amor idólatra é muitas vezes descrito como o grande, verdadeiro amo; mas, embora pretenda retratar a intensidade e a profundidade do amor, apenas mostra a fome e o desespero do idólatra."

"O argumento comum dos pais em tal situação (infeliz) é a de que não se podem separar a fim de não privar os filhos das bênçãos de um lar unificado. Qualquer estudo pormenorizado, entretanto, mostraria que a atmosfera de tensão e infelicidade dentro da "família unificada" é mais prejudicial aos filhos do que o seria um rompimento claro - o qual pelo menos lhes ensinaria que o homem é capaz de por termo a uma situação intolerável por meio de uma decisão corajosa."

"Assim experimentado, o amor é um desafio constante; não é um lugar de repouso, mas é mover-se, crescer, trabalhar juntamente; haja harmonia ou conflito, alegria ou tristeza, isso é secundário em relação ao fato fundamental de que duas pessoas se experimentam mutuamente a partir da essência de sua existência, que são uma com a outra por serem uma consigo mesmas, em vez de fugir de si mesmas." 

"O amor fraternal é o amor entre iguais; mas na verdade, mesmo como iguais não somos sempre "iguais"; e por sermos humanos, temos todos necessidades de ajuda, todavia, não significa que um seja desamparado e o outro poderoso. O desamparo é uma condição transitória; a permanente e comum é a capacidade de erguer-se e caminhar pelos próprios pés". 

"Por estar o desejo sexual emparelhado na mente de muitos com a ideia de amor, são eles com facilidade levados à má conclusão de que se ama um ao outro quando se querem um ao outro fisicamente. (...) Se o desejo de união física não for estimulado pelo amor, se o amor erótico também não for amor fraterno, nunca levará à união mais do que num sentido orgíaco e transitório. A atração sexual cria, no momento, a ilusão de união, mas, sem amor, essa união deixa os estranhos tão afastados quanto antes se achavam."

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Um relacionamento não se constrói em um único alicerce: não é o sexo que prende, não são as afinidades de pensamento, as condições materiais e financeiras, nada disso pode sustentar uma relação. Ela se finda a partir de uma construção muito lenta que requer paciência  e companheirismo. 

Os dois precisam crescer juntos, que um sirva de ponto de apoio para que o outro possa dar seus frutos, trilhar seu caminho. Dois são um, porém dois ainda são dois. Um paradoxo real.   Não podemos abrir mão de nossas vidas, pois acima de tudo e qualquer coisa, somos indivíduos que tem suas próprias aspirações, desejos e sonhos. 

Amar é uma experiência pessoal, cujo a receita não pode ser dada de igual maneira para todos.  Mas se existe alguns truques que são infalíveis para todos e qualquer tipo de relacionamento é dominar a arte da paciência, de saber ouvir atentamente as pessoas  e levar a sério o que se é dito.  Amar é emergir do narcisismo e da fixação de que somente as suas necessidades devam ser atendidas. Amar é ceder, é encontrar pontos de equilíbrio entre os desejos de cada um.  

E uma pessoa sozinha não pode salvar.  Nas crises, só há salvação quando os dois estão dispostos a fazer avaliações criteriosas sobre os seus erros e o que podem mudar daqui pra frente, que é o que realmente importa. 

O amor vale todas as tentativas.  

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A ditadura da beleza

Vivemos uma época intensamente imagética, onde as pessoas estão muito mais preocupadas em mostrar quem elas são através do seu corpo. Mulheres se afundam em plásticas e horas a fio dentro de academias, ingerindo produtos tóxicos e não aceitando a passagem do tempo e as marcas que deixam o viver.  Como disse meu primo certa vez, em tom de piada, a pessoa faz tanta plástica que quando gargalha o braço levanta.

A mídia é hoje o grande responsável por esta ditadura da beleza, onde gordurinhas extras e qualquer imperfeição devem ser corrigidas a qualquer preço, numa obsessão por estar magra ou gostosa, dois padrões distintos e muito cobiçados por mulheres e homens. O que essas pessoas precisam pensar é que a perfeição é inalcançável, porém quando se está neste estado obcecado fica realmente difícil compreender a submissão estética no qual ela sofre.

A beleza é um estado muito mais amplo e diverso do que mostra a televisão. Olhos azuis, cabelos louros, silicone e tantos outros quesitos são apenas aditivos. Cada pessoa é bela pelo o Ser que ela é, a sua humanidade e coisas que não estão disponíveis na imensa prateleira das salas de cirurgia, muito menos em academias. Ser um objeto sexual valorizado não fará ninguém mais feliz, pelo contrário, apenas atrairá pessoas interessadas em prazeres momentâneos e fugazes.

É claro que sempre haverá coisas no nosso corpo que incomodam, e isso é normal. O anormal é ser obcecado pela perfeição. Do que adianta um lindo frasco cheio de chorume dentro?! Beleza é uma combinação harmônica que vai muito além da forma física. Certamente se as pessoas cuidassem da sua alma e da sua mente da mesma forma que cuidam de seus corpos, o mundo não estaria tão sobrecarregado de óbitos resultantes desta compulsão pela beleza das capas de revistas e campanhas publicitárias e nem tão cheio de pessoas vazias e fúteis cujo a limitação é o próprio umbigo. 

domingo, 17 de novembro de 2013

O macho tem futuro?



Abaixo segue alguns trechos de um texto incrível do historiador Jaime Pinsky: O macho tem futuro?

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Enquanto isso, o homem, estimulado a competir desde muito cedo, busca apenas aperfeiçoar suas armas para "vencer", a qualquer custo. Todos temos amigos e conhecidos que nao leem a não ser o mínimo necessário para melhorar o desempenho de suas tarefas profissionais. O resultado são pessoas desinteressadas e desinteressantes, incapazes de se relacionar com seus iguais num nível um pouco mais alto. 

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Dá uma enorme tristeza ver profissionais competentes, mas culturalmente despreparados, que não sabe, curtir um bom concerto ou um bom livro. Por outro lado, usam a emoção para ver filmes banais e escutar música piegas. Não, não se trata de gosto, apenas. Cultura se aprende e gosto se burila. Como é que um executivo, que conhece as patifarias da sociedade de massa, pode se deslumbrar com produtos da indústria cultural concebidos e produzidos por marqueteiros e divulgados a custa de jabaculês?

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O acesso a bons filmes talvez possa evitar o processo de infantilização de adultos (comédias idiotas, desenhos elementares, personagens sem conteúdo). Visitando bons museus, as pessoas estabelecem um contato mais estreito com importante parcela do patrimônio cultural da humanidade preservado nesses espaços. A boa música, popular ou clássica, ajuda a desenvolver a sensibilidade. 

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Nós, homens, agimos como nossos pais (e avós): acreditamos que a manifestação de afeto podem ser expressas materialmente. Entupimos nossos filhos de brinquedos em troca do carinho que não encontramos tempo em oferecer. Destinamos a nossas mulheres flores, jóias, e jantares caros como substitutos de conversas inteligentes, amor e sexo. São soluções pobres, de machos desorientados. Que estão correndo grande risco de perder a hegemonia. 

Por que gostamos de História? - Jaime Pinsky

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Acredito que toda a situação vá muito além de questões de gênero e status social. Esta infantilização do adulto, da massificação da indústria do entretenimento atinge a todos, praticamente de igual maneira, salvo a algumas raras exceções. É comum ver pessoas que tiveram todas as oportunidades do mundo, material e culturalmente, e continuam estagnados dentro do mesmo patamar, ainda que acreditem que estão evoluindo, assistindo os mesmos programas na televisão, lendo romances puramente comerciais e por ai vai. 

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Os prejuízos do tempo acelerado e perdido





É muito comum quando encontramos um amigo ou conhecido na rua e perguntamos como vai a vida e logo escutamos aquele mantra: -Nossa, estou muito ocupado! É uma correria, não tenho tempo para nada. Estar ocupado hoje é praticamente um status elevado na nossa sociedade, não há quem fale sem orgulho que sua vida é uma correria. Meus pêsames para você, que vive ocupado. Porém a questão não é muito bem essa, de estar ou não. A falta de tempo mata nossos sonhos, solapa qualquer perspectiva de mudanças reais.

Nossas certezas, nossa forma mecânica de viver a vida nos impede de olhar para além da muralha de ocupações que construímos que distraem nossa consciência e estão longe de proporcionar uma vida fascinante. Precisamos avaliar: nossas ocupações diárias enriquecem nossa alma?  Valorizam o nosso ser? Sacia nossa fome existencial? Certamente não.  Afinal de contas nossos compromissos são tão individuais e substituíveis, que qualquer outra pessoa poderia fazer no seu lugar. Acordamos, levamos as crianças na escola, corremos para o trabalho, chegamos cansados, ligamos a televisão, pedimos uma pizza e antes de dormir ligamos o despertador.  Estamos ocupados para esquecer o tédio.  Disse o filósofo australiano, Roman Krznaric: “Uma explicação mais profunda é que temos medo de que uma pausa prolongada nos dê tempo para perceber que nossas vidas não são tão significativas e satisfatórias quanto gostaríamos. O tempo para contemplação tornou-se um objeto de medo, um demônio.”

Nesta dinâmica do eterno fazer, perdemos o nosso precioso tempo com coisas triviais que não trazem nenhum significado real e talvez estamos tão envolvidos em ocupações para disfarçar o vazio existencial que domina nossa vida.

Ocupe-se com os seus sonhos. Fique ocupado em transformar sua lista de sonhos em realidade, nem que para isso você tenha que talvez cortar ou ajustar alguns itens.  Tenha tempo para ajudar outras pessoas, de participar da vida coletiva. Esqueça as conversas de elevador sobre o tempo, tenha diálogos mais enriquecedores. Podemos fabricar tempos mais preciosos, bastando para isso não nos submeter a esta tirania social de que “estar ocupado” é sinônimo de grandes e enlevadas ações. Não cultue a velocidade, o tempo está longe de ser um fenômeno natural; na verdade ele é fabricado para que a economia possa nos explorar e controlar de forma mais fluida, sem que você perceba que é um escravo do relógio, da rapidez, do excesso de movimentos sem sentido. Adote um ritmo mais suave de sorver sua existência.