quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Os prejuízos do tempo acelerado e perdido





É muito comum quando encontramos um amigo ou conhecido na rua e perguntamos como vai a vida e logo escutamos aquele mantra: -Nossa, estou muito ocupado! É uma correria, não tenho tempo para nada. Estar ocupado hoje é praticamente um status elevado na nossa sociedade, não há quem fale sem orgulho que sua vida é uma correria. Meus pêsames para você, que vive ocupado. Porém a questão não é muito bem essa, de estar ou não. A falta de tempo mata nossos sonhos, solapa qualquer perspectiva de mudanças reais.

Nossas certezas, nossa forma mecânica de viver a vida nos impede de olhar para além da muralha de ocupações que construímos que distraem nossa consciência e estão longe de proporcionar uma vida fascinante. Precisamos avaliar: nossas ocupações diárias enriquecem nossa alma?  Valorizam o nosso ser? Sacia nossa fome existencial? Certamente não.  Afinal de contas nossos compromissos são tão individuais e substituíveis, que qualquer outra pessoa poderia fazer no seu lugar. Acordamos, levamos as crianças na escola, corremos para o trabalho, chegamos cansados, ligamos a televisão, pedimos uma pizza e antes de dormir ligamos o despertador.  Estamos ocupados para esquecer o tédio.  Disse o filósofo australiano, Roman Krznaric: “Uma explicação mais profunda é que temos medo de que uma pausa prolongada nos dê tempo para perceber que nossas vidas não são tão significativas e satisfatórias quanto gostaríamos. O tempo para contemplação tornou-se um objeto de medo, um demônio.”

Nesta dinâmica do eterno fazer, perdemos o nosso precioso tempo com coisas triviais que não trazem nenhum significado real e talvez estamos tão envolvidos em ocupações para disfarçar o vazio existencial que domina nossa vida.

Ocupe-se com os seus sonhos. Fique ocupado em transformar sua lista de sonhos em realidade, nem que para isso você tenha que talvez cortar ou ajustar alguns itens.  Tenha tempo para ajudar outras pessoas, de participar da vida coletiva. Esqueça as conversas de elevador sobre o tempo, tenha diálogos mais enriquecedores. Podemos fabricar tempos mais preciosos, bastando para isso não nos submeter a esta tirania social de que “estar ocupado” é sinônimo de grandes e enlevadas ações. Não cultue a velocidade, o tempo está longe de ser um fenômeno natural; na verdade ele é fabricado para que a economia possa nos explorar e controlar de forma mais fluida, sem que você perceba que é um escravo do relógio, da rapidez, do excesso de movimentos sem sentido. Adote um ritmo mais suave de sorver sua existência.

Um comentário:

norma disse...

Oi Flor,

(o assunto do teu Post me interessa e muito - rs)

O meu pai me ensinou que, se precisasse de algo feito por terceiros, solicitasse à pessoa mais ocupada. É que as pessoas que mais fazem coisas são as que menos têm tempo.

"O tempo é uma coordenada.
O tempo é uma variável.
O tempo é um conceito.
O tempo é relativo.
O tempo passa.

Passa? Como assim, passa? Ele passa mesmo ou ele passa pra nós, seres vivos? Ele passa igual pra todo mundo? O tempo, como demonstrou Einstein, depende da velocidade mesmo? Você conhece o Paradoxo dos gêmeos (relatividade), em que um fica na Terra e o outro viaja próximo à velocidade da luz e, ao se reencontrarem, o que viajou está muito mais 'jovem' que o que ficou?
E por que em alguns momentos o tempo voa e em outros o tempo se arrasta?

Esta questão sempre intrigou o ser humano, finito e mortal. Não tem um ser humano vivo que nunca pensou em dilatar o tempo, em viver eternamente, em controlar a passagem do tempo para não envelhecer.

("Além da sensação heterogênea da passagem do tempo, também temos todo um julgamento a respeito do uso do tempo, ligado à nossa eterna pressa. Por isso tem gente que faz 'quatro lipos' em vez de investir anos numa dieta balanceada. O ser humano tem pressa, quer pra já, pra agora, pra ontem. Quer sucesso instantâneo, como um raio de sorte que lhe cai sobre a cabeça. Quer a mágica, o truque, não quer a experiência. " R.Hermann)
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Há uma palavra em grego que expressa um segundo sentido para o tempo. Não o tempo medido, o cronológico, mas outro tempo chamado Kairós.

Wikipedia:

"Cronos e Kairos são termos gregos para designar o tempo. Cronos é o tempo medido pelo relógio, calendário, rotina. É o tempo determinado dentro de um limite. Kairos significa o momento certo, oportuno. Refere-se a um aspecto qualitativo do tempo."

"Que coisa incrível. Então os gregos já sabiam que o tempo não é um só? Sim, sabiam. Chronos era o tempo cronológico, o deus Chronos, do tempo medido. O tempo do calendário, o tempo humano. Chronos, da cronologia, o tempo cronológico, do cronômetro, é cruel. Kairós, não. Kairós é a oportunidade, o tempo espiritual, o tempo existencial." (R.Hemann)

"Na mitologia grega, Kairos(καιρός, “o momento certo” ou “oportuno”) é filho de Chronos, é o deus do tempo e das estações. Ao tempo existencial os gregos denominavam Kairos e acreditavam nele para enfrentar ao cruel tirano Chronos. Na filosofia grega e romana é a experiência do momento oportuno. Os pitagóricos lhe chamavam Oportunidade. Kairos é o tempo em potencial, tempo eterno, enquanto que Chronos é a duração de um movimento, uma criação."
(Wikipedia em português)

E tem mais. Tem um terceiro tempo o tempo eterno: aeon. Que é também um tempo lúdico, um tempo em que... chronos não passa, aeon é a vida inteira.

(Como muito bem disse Rubem Alves: “O tempo pode ser medido com as batidas de um relógio ou pode ser medido com as batidas do coração”).

Bacana isso, Saber que existe o tempo medido, o tempo espiritual, a eternidade do tempo.

Tenha um cronos recheado de cairos.

Norma

P.S.: O que a ciência diz:
http://noticias.r7.com/tecnologia-e-ciencia/noticias/cientistas-descobrem-como-fazer-o-tempo-passar-mais-rapido-ou-mais-devagar-20121106.html?question=0

Dois pesquisadores da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, usaram dois macacos rhesus em um estudo para determinar como o cérebro tem noção de tempo — e, com isso, mudar a noção de tempo que um ser humano tem, para mais rápido ou mais devagar. (...)

No estudo, eles perceberam que a noção é descentralizada no cérebro, com vários circuitos usando seus próprios mecanismos temporais para cada atividade. Isso explica por que, em certas condições, achamos que o tempo passa mais rápido — como quando estamos nos divertindo.
Bjo Nac♥