sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O Ócio Criativo



Hoje terminei de ler o livro O ócio criativo, de Domenico de Mais, indicação da amiga Potira que sempre me sugere livros incríveis.  Há um tempo escrevi aqui no blog sobre odesperdício da vida ociosa, talvez hoje teria cortado a palavra ociosa e substituído por outra que ainda não sei bem qual.

Domenico de Masi traça um panorama histórico do trabalho e as modificações que ele sofreu desde o advento da indústria e como o perfil do trabalhador mudou.  Foi na Revolução Industrial que foi separada a vida do lar, do trabalho, o cansaço e a diversão.  Teoricamente o avanço tecnológico deveria proporcionar aos homens mais horas de tempo livre e menos tempo enfurnados em escritórios, mas sabemos que não foi assim que caminhou a humanidade. Hoje parece haver um certo status para quem vive ocupado e não tem tempo para nada. Só o que eu posso fazer é lamentar por essas pessoas e dizer: meus pêsames.

“Há o masoquismo coletivo: nem sempre as pessoas desejam viver melhor e serem mais felizes.”

Prova disso é a esmagadora maioria que perde cerca de 10h do seu dia fazendo algo que detesta sem mover uma única folha sequer para transformar sua situação e investir em carreiras que estejam em mais sintonia com os seus valores.

Obviamente que precisamos de um trabalho, uma remuneração para nos mantermos vivos, desfrutarmos de alguns “luxos” (que significa abundância e não bens materiais), mas isso não quer dizer que precisamos desperdiçar nossas vidas e criatividades trancafiados em escritórios (sejam eles dentro ou fora de casa).  Quem trabalha ou já trabalhou nestas grandes corporações sabe o excesso de pessoas que ficam ali enrolando, bebendo café e fazendo qualquer outra coisa inútil.

“Mais tempo a pessoa passa dentro do escritório, menos produtivo é. Apesar de tudo, para não ter que mudar os próprios regulamentos, a empresa prefere se prejudicar e paga a pessoas que não produzem nada.

Boas idéias geralmente passam longe das paredes frias e cinzas das empresas.  Elas geralmente surgem quando os indivíduos estão relaxados, fora do ambiente de tensão e pressão de resultados.  Talvez vocês concordem comigo, as boas idéias geralmente surgem quando estamos tomando banho, ou quando estamos deitados na cama, antes de dormir.

“Uma pessoa que está no escritório sem nada para fazer adquire, como eu já disse, o péssimo hábito de passar o tempo inventando modos de criar procedimento e regras que dão dor de cabeça aos outros e só prejudicam.”

Domenico de Mais enfatiza o trabalho criativo e intelectivo, e diz que os subempregos (vulgo aqueles moços que ficam apertando botões no elevador) tendem a se dissipar.  E realmente, seria muito mais digno e útil que quem paga um salário para uma pessoa ficar dentro de um elevador, poderia muito bem dar este salário para que ele investisse em estudos ou numa carreira que fosse mais carregada de sentido. É típico desta sociedade pós-industrial que vivemos criar ocupações inúteis, que servem apenas para mudar o status de “desempregado”, para “empregado”.  Ou seja, essas postos de trabalho tendem a acabar com o passar do tempo e haverá mais trabalho para a indústria criativa. Esse é o pensamento do sociólogo.

É obvio que existe um ócio que é alienante, e eu descrevi sobre isso no “Desperdício da vida ociosa”. Pois, indivíduos que nada produzem são inúteis, vazios e entediantes. O ócio criativo é para mentes ativas, fecundas que estão sempre produzindo , crescendo, enriquecendo.  A maioria das pessoas, quando dispõe de tempo livre geralmente não sabe o que fazer com ele e se entedia facilmente, pois foram educadas para seguir regras e prescrições que foram consolidadas num dado momento histórico, que foi na era industrial.

“Preenchendo o tempo com ações escolhidas por vontade própria, em vez daquelas que se faz por coação, como o trabalho de escritório ou na linha de montagem.”

Quando o sociológo Domenico de Masi orienta para que a educação seja voltada para ócio,isso significa educar para que as escolhas sejam dotadas de sentido. “Quanto mais educado você for, um maior número de significados as coisas suscitam em você e mais significado você dá as coisas.”

Ao contrário do que habita o imaginário, este modelo está longe de ser anárquico e contra a produção de riquezas. Ao contrário, ele é favor de uma distribuição mais justa, onde os trabalhadores possam desfrutar de qualidade de vida, tanto no ambiente corporativo, como fora dele. Com o tempo essas duas esferas tendem a se unir, até chegar ao ponto que nossas carreiras serão significativas, flexíveis, mais voltadas para a solidariedade e o bem estar coletivo, do que a acumulação de posses e bens materiais.  Ou seja: "É preciso incluir, no cotidiano, atividades que reúnam o descanso, o lazer, o trabalho e a aprendizagem"
        

Tudo isso talvez soe utópico para as gerações anteriores. Mas pode ser o futuro dos nossos filhos e eu torço muito para isso. 

Leitura indispensável para executivos e intelectuais! 


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