terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Filosofia do Tédio




Sabemos que o livro é bom quando grifamos um terço de cada página, e assim foi minha experiência com o livro “Filosofia do Tédio”, de Lars Svendsen que recebi da Editora Zahar.
O que é o tédio? Apesar de nos confrontarmos com ele em intervalos regulares da nossa vida muitas vezes não sabemos defini-lo e nem identificar o porquê dele ter se instalado. Sentimos apenas um branco, ou cinza para todos os lados. 

Para o filósofo Lars Svendsen, o tédio é a ausência de significado e um fenômeno típico da modernidade. Um aspecto intrínseco da existência humana, que além de provocar certa inércia e falta perspectiva, também traz a tona reflexões profundas sobre o modo como vivemos e as escolhas que fizemos e nos conduziram até aqui: o momento presente (e talvez para algumas pessoas, entediante). 

O fato de termos escolhas finitas as tornam muito mais importantes e mostram o caráter da finitude de nossa existência, pois não temos como agarrar todas as possibilidades. Um sim aqui ressoa em diversos nãos ao longo da jornada e vice-versa.  Certamente não são todas as pessoas que se dão conta disso. O fato de a maioria ter em pensamento que muitos são os nossos poderes de escolha faz com que todas elas sejam banais, sem importância, e sejam feitas sem nenhuma reflexão dos seus resultados. Ação e reação. E o resultado pode ser um tédio profundo. Mas o tédio não é um privilégio de uma classe de pessoas, ele faz vítimas generalizadas. 

Por que o tédio é uma concepção moderna? Pois, foi na modernidade que fomos libertados de toda a tradição e a partir daí cada um deve por si mesmo buscar seus próprios significados e contextualizá-los dentro da sua órbita individual e coletiva.  Segundo o filósofo Lars Svendsen o tédio não tem mais do que 300 anos. 

Apesar da sua natureza comumente negativa, também existe o lado positivo quando há consciência no sujeito que sofre de tédio, pois somos levados a reflexão e quem sabe, ao autoconhecimento, que cientes do nosso estado podemos buscar a transformação e com ela um novo leque de possibilidades se abre. Aceitar o momento entediante é o caminho, defender-se contra ele é fugir de si mesmo. Há um papel construtivo em aceitar o tédio e não ignorá-lo, ou mesmo em tentar afugentá-lo através da diversão e da busca pelo prazer, afinal de contas essas emoções são tão impermanentes como todos os momentos que permeiam a existência humana. MOVIMENTO de humores, sensações, estados de consciência. “Viva uma mentira, dance para sempre.” 

Toda eternidade é entediante. E foram envolvidos pelos véus do tédio que Eva e Adão comeram o fruto do conhecimento e se libertaram do paraíso (a eternidade).

Quando se instala o tédio “Que deve ser feito, então? Nada senão continuar. Retornar ao cotidiano. Continuar como sempre se fez. Ir adiante, embora não se possa ir adiante. Ir adiante no agora, quando nem passado, nem futuro parecem oferecer nenhuma base para onde se deveria ir.” 

Á primeira vista parece uma solução negativa de combater o tédio, porém o tédio não pode ser combatido ou enfrentado. Quando o fazemos e colocamos o lazer, entrenimento, a busca por Deus ou qualquer outra coisa afim de erradicar o tédio, elas nada mais são do rotas de fuga. O ideal é buscar cada coisa por si mesma, e não para disfarçar as rugas de nossas insatisfações.  Distrações para apaziguar ou extinguir a dor e o sofrimento é desumanizar-se. Existe um caráter edificante em todos os tipos de sofrimento, angústia, tédio ou qualquer outro mal que venha a nos afligir. Quando encaramos o tédio como um fenômeno natural da vida humana e contingente ele se esvai da mesma forma em que surge. Minimize o grau de importância e busque novos significados. 

E como saber se o mal que me aflige é o tédio?! 

Quando falta um propósito na vida;

Uma dessintonia com o mundo ao nosso redor;

Quando as possibilidades simplesmente desaparecem e tudo se torna distante demais. 

“Da mesma maneira que no tédio situacional desejamos o desaparecimento do presente, queremos escapar também do lugar onde estamos. E assim como o tempo virtualmente implode em tédio existencial, tornando-se uma espécie de tempo presente eterno e enfadonho, todo o nosso ambiente perde sua vitalidade, e a diferença entre o próximo e o distante desaparece.” 

Quem nunca sentiu tudo isso? E quantas vezes usamos o entretenimento vazio para afugentá-lo na tentativa de fugir da realidade? Cria-se uma ilusão, afasta- se a possibilidade de refletir sobre o modo como vivemos e conseqüentemente as transformações necessárias para se alcançar novos significados e até mesmos novos signos e perspectivas se perdem. 

A busca incessante pelo interessante tem um prazo de validade curto, pois toda a novidade tende a se tornar rotina, como já bem enfatizou Schopenhauer, que falou sobre o fim para o ciclo de vontade – satisfação – tédio – sofrimento através da arte, sobretudo a música. Porém, até mesmo a musica chega ao fim. 


Abaixo segue algumas citações que achei importante: 

“O Momento é sempre indefinidamente adiado. O momento – o verdadeiro significado da vida – só aparece de forma negativa, a da ausência, e os pequenos momentos (no amor, na arte, na embriaguez) nunca duram muito. O problema reside, antes de mais nada, em aceitar que tudo o que é dado são pequenos momentos, e que a vida oferece muito tédio entre estes.”

“Uma coisa é aceitar o próprio destino, outra coisa é amá-lo.”

“É possível ser feliz sem ser superficial. O mais comum, no entanto , são pessoas infelizes e superficiais.”

“O tédio não nos conduz a nenhuma compreensão profunda, abrangente, do significado do Ser, mas pode nos dizer algo sobre como realmente vivemos nossas vidas. Isso talvez não fosse suficiente para Heidegger, mas é só o que o fenômeno pode oferecer.”

“Ele fica entediado porque falta à vida um propósito e um significado; e a tarefa do tédio é atrair nossa atenção exatamente para isso.” 

“Como o tédio nos força a isso? Privando-nos de tudo, através da indiferença, de tal modo que não encontramos mais apoio em lugar nenhum. As coisas perdem sua significação uma por uma – tudo desmorona num todo indiferente.” 


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