quarta-feira, 28 de maio de 2014

Amor, uma história (2)





Hoje vou dar continuidade à série de resenhas sobre o livro “Amor, uma história”, do filósofo Simon May (Editora Zahar). No primeiro texto, quevocê poderá ler aqui, falei sobre a arte de amar de Ovídio, liberdade que os relacionamentos devem ter e a satisfação do prazer erótico.  Hoje vou me concentrar sobre a percepção que o filósofo Montaigne tinha sobre o amor. 

“Se me pressionares a dizer por que eu o amava, sinto que isso não pode ser expresso exceto respondendo: ‘Porque era ele, porque era eu’.” 

Considerado o pensador mais humano do Renascimento francês, a frase citada acima se refere a sua amizade com Etienne de la Boètie, o amor que os ligava era tão forte e fanático que certamente causaria estranheza ao  nosso pensamento atual. Mas Montaigne acreditava que o amor-amizade era o relacionamento mais importante que existia, superando até mesmo o amor de um casal. E isso somente podia surgir entre duas pessoas, jamais no plural, pois se uma pessoa tiver diversos amigos acabará por dar atenção diminuída a alguém. Ele chega até  mesmo a afirmar que uma pessoa cujo leque de amizades é extenso, não sabe verdadeiramente o que é uma amizade.

Como a relação amorosa conjugal está sujeita ao desgaste através da saciedade do desejo corporal, ela posta como inferior ao amor-amizade, que para o filósofo é  uma verdadeira união de almas fomentada pelas similaridades, onde toda idéia de prazer, interesse e lucro é abominável.

Para ele não havia amizade entre membros da família, como pai e filho, ou com a esposa, irmão, pelo fato do respeito ser o maior intermediário destas relações: o que impede a manifestação total da amizade, que seria um profundo bem estar e liberdade para se dizer o que é preciso.

Montaigne celebrava tudo o que era humano e via na ambição de transcender a natureza humana como uma bestialização, uma loucura. Ele considera a ambição o pior defeito do homem e toda tentativa de superação é vista apenas como um simulacro que construímos para impressionar a nós mesmos e os outros. (Ponto que diverge do meu pensamento).  O filósofo diz que só podemos experimentar o amor-próprio se aceitarmos quem nós somos com todas as nossas limitações e imperfeições, logo, qualquer maneira de superar esses defeitos é ir contra sua própria natureza. “sobre o trono mais elevado, estamos sentados, ainda, sobre nossos traseiros.”  O Filósofo crê  que o amor-próprio e todo relacionamento amoroso só pode existir se tivermos consciências da nossa finitude. 

No campo dos relacionamentos entre casais, Montaigne tinha um pensamento bastante realista. Sugere não fazermos apostas no jogo do amor pela sua fragilidade e aceitar, compreender e apreciar o outro amado do jeito que ele é, sem transformá-lo em um herói ou heroína que seja capaz de nos livrar do sofrimento, preencher nosso vazio interior e a insegurança.  
O autor do livro “Amor, uma história”, Simon May, faz um passeio delicioso pela história do pensamento Ocidental acerca do amor. E eu vou caminhando com ele, escrevendo por aqui. 


Um comentário:

Pensando disse...

Livro comprado! Assim que tiver alguma impressão comento aqui, mas gostei da sua resenha!!