quinta-feira, 28 de agosto de 2014

A arte da vida (2)


Conclui a leitura do livro “A arte da vida”, do sociólogo Bauman, entre fichamentos, espantos e reconhecimento, compartilho com vocês a última resenha da obra e os aspectos de maior relevância pra mim. É importante ressaltar que Bauman problematiza muito mais a questão da felicidade do que propriamente apresenta soluções.

O livro fala sobre a felicidade na era contemporânea e como nossa sociedade líquido-moderna faz para tentar alcançar este estado. Bauman enfatiza que dentro de todas as nossas possibilidades, que hoje se apresentam como infinitas, precisamos investir toda a energia e atenção no nosso projeto de vida. E o fato de que nossas decisões não estão livres de riscos, devemos aprender a aceitar a incerteza da vida e tentar sempre o impossível.  Mas a realidade é que ninguém, ou uma parcela muito ínfima de indivíduos, quer como pré-requisito da felicidade o trabalho árduo, a abnegação ou o auto-sacríficio, preferem ser levados pelo conforto das facilidades, o que nem sempre conduz ao caminho da realização.

“Pessoas persistentes, determinadas e corajosas ainda podem fazer com que seus corações e mentes sigam a sugestão de Sartre. Mas, sabendo ter escolhi uma tarefa desanimadora, sem garantia, nem mesmo uma esperança razoavelmente realista, de concuí-la, devem estar cientes de que a tarefa é mesmo desanimadora. Devem avaliar a força de sua dedicação em relação à severidade dos testes. Essas pessoas (assim como o resto de nós) devem estar conscientes de que, enquanto durar a peregrinação, as condições de viagem tenderão a permanecer muito semelhantes às atuais: caracterizadas pela incurável fragilidade das posições sociais e fontes de subsistência, pela sensibilidade irritadiça dos vínculos inter-humanos, pela mutabilidade camaleônica dos valores ambicionados e dos assuntos recomendados pela opinião pública como dignos de atenção e esforço.”  

Para ao menos viver uma vida feliz precisamos de propósitos, que depois de identificados, devem ser perseguidos, como uma meta. Tendo consciência de que TODOS os caminhos são espaços de obstáculos, então é melhor trilhar aquele nos conduz a felicidade, já que muitas vezes a caminhada é mais repleta de sentido do que o objetivo em si. E  a opinião da maioria não deve exercer relevância quando sabemos para onde queremos chegar. Muitos são os apelos midiáticos e consumistas que vão nos ludibriando do caminho escolhido, apontando para uma vida na superfície. 

Bauman coloca uma questão muito pertinente para os tempos atuais:  a felicidade individual e o outro.  Hoje temos uma posição mais individualista e repetimos mantras do tipo “mereço isso”, “devo isso”, e a busca por uma vida feliz se restringe ao campo individual, isentando a responsabilidade do Outro.O que me lembrou de outro livro da Editora Zahar que li chamado “Sobre a arte de Viver”,do filósofo Roman Krznaric. Estamos isolados uns dos outros num planeta interconectado, e enquanto isso perdurar seremos apenas mantenedores egocêntricos de nossa felicidade.

Para finalizar, Bauman sugere a prática dos quatro C na busca pela felicidade: Continuidade, Constância, Consistência e Coerência.


“A felicidade, para relembrar o diagnóstico de Kant é um ideal não da razão, mas da imaginação.” (BAUMAN, 2008. P.173)


quinta-feira, 7 de agosto de 2014

A arte da Vida (1)



A arte da Vida é um livro do Zygmunt Bauman, que apresenta um estudo sociológico acerca da felicidade no momento contemporâneo. Como a obra induz a muitas reflexões vou dividir a resenha em partes, para que haja mais completude.

O primeiro capítulo e a introdução focam especificamente no conceito moderno de que aumentando a renda das pessoas, estas experimentariam maior contentamento. Porém, como se é esperado, não é exatamente isso que faz as pessoas mais felizes. Acredite. Os excessos trazem a incerteza e a insegurança, grandes minadores do estado de felicidade. Uma vez privados da liberdade, o indivíduo se sente aprisionado no seu montante de capital.

"O consumo não leva à certeza e à saciedade. O bastante nunca bastará."

Traçando uma análise das formas de se alcançar a felicidade e como elas são substituídas ao longo do tempo, Bauman destaca o consumismo, como a grande chave do capitalismo para ludibriar as pessoas que consumindo elas terão mais satisfação pessoal, porém o que vemos é que estas se tornam reféns do escapismo da moda e de sua liquidez, uma vez que elas estão em constante transformação substituindo seus valores a cada estação.

"Um dos efeitos mais seminais de se igualar a felicidade à compra de mercadorias, que se espera que gerem felicidade, é afastar a probabilidade de a busca da felicidade algum dia chegar ao fim. Essa busca nunca vai terminar - seu desfecho equivaleria ao fim da felicidade como tal"

Bauman enfatiza que nossas vidas são obras de arte e reforça a responsabilidade de cada um de apropriar-se do seu projeto de vida e tentar sempre o impossível, uma vez que a incerteza é o habitat natural do humano.Um dos caminhos de se alcançar isso é desviar do peso esmagador da maioria que dita o que devemos fazer e como.

Para que possamos encontrar a tal da felicidade (não aquela que parece residir sempre além do horizonte e inalcançável), precisamos nos libertar do olhar do outro, da necessidade de ser visto, adorado e estimado. Senão fizermos isso seremos eternos prisioneiros, buscando na comparação e competição estarmos a frente das demais pessoas, o que nem de perto traz felicidade, apenas a saciedade do ego e muito rapidamente a frustração e o ressentimento por não ter suprido as expectativas alheias.