terça-feira, 16 de dezembro de 2014

A Ditadura que mudou o Brasil – 50 anos do Golpe de 1964



Organizado por Daniel Aarão Reis, Marcelo Ridenti e Rodrigo Patto Sá Motta, o livro A Ditadura que mudou o Brasil – 50 anos do Golpe de 1964, da Editora Zahar traz um panorama muito rico do que foi o Golpe Militar e suas transformações para o país, que ainda mantém uma cicatriz aberta decorrido os 50 anos após a tomada do aparelho governamental pelos Militares.

O livro traz pesquisas bastante atuais, leitura imprescindível para os estudantes, historiadores e para o público geral que se interessa pela política brasileira. A obra é um convite para se refletir o passado e o presente com as conseqüências deixadas por um regime que propunha uma modernização conservadora autoritária, com a participação e apoio da sociedade civil. Entendem-se também como apoiadores aquela parcela da sociedade indiferente e omissa.  

A obra é objetiva e completa. Caminha de forma didática ao período histórico que antecedeu o Golpe, indo do Estado Novo de Getúlio Vargas, a política de JK, a renúncia de Jânio Quadros e o Golpe que tirou João Goulart do poder até os resquícios da Ditadura que perduram atualmente.

Primeiramente, a Ditadura Militar se instaurou com o objetivo de conter um suposto avanço do comunismo e impedir a corrupção com o suporte da classe empresarial, as oligarquias rurais, a classe média, instituições religiosas e a imprensa. Enquanto isso a esquerda estava divida em divergências quanto a maneira de se reverter o quadro político do país. Mas o Governo Militar não hesitou em prender, torturar, matar e exilar seus adversários dentro dos longos 21 anos em que permaneceram no comando.

O cenário econômico que marcou o período ditatorial foi de desenvolvimento à custa da democracia e com grande concentração de riquezas. Quem se beneficiou do milagre econômico não foi exatamente a massa populacional. E em 1985 o Brasil se encontrava endividado, com inflações exorbitantes e completamente ferido com seus mortos, feridos e desaparecidos.

É difícil sintetizar um livro que traça um panorama histórico de 21 anos de Ditadura Militar e as conseqüências posteriores ao regime, mas a obra é completa, elucida as características de cada período, não deixando nada passar despercebido. A sensação que fica quando se conclui o livro é de incômodo, pois não é possível fazer este mergulho em fatos do passado e não associá-los às feridas que ainda permanecem abertas e expostas.  




terça-feira, 9 de dezembro de 2014

O que o dinheiro tem a ver com felicidade?



O que o dinheiro tem a ver com felicidade? NADA. Caso contrário, pessoas ricas não sofreriam. Mais um par de sapatos é só mais um par de sapatos, mesmo que você perceba isso daqui a um ano quando fizer uma faxina no guarda-roupa. Se existe uma coisa que eu não compreendo é a necessidade de afirmação pelo dinheiro. Não é preciso ser tão sensível para saber que ele pode comprar pacotes de viagens, um mestrado, um saco de jujubas ou uma conta luz e nunca, nunca poderá comprar afeto, relações, paz de espírito, sabedoria etc. Dinheiro é ótimo, resolve uma série de pepinos que nós mesmos arrumamos para a nossa vida, mas ele jamais será a redenção. Como isso ainda não é óbvio?! Apelando para o clichê: o dinheiro não compra felicidade. Existe um estudo científico que compara o nível de felicidade de uma pessoa que ficou paraplégica e quem ganhou na mega-sena em um ano. Para o espanto da nação, os dois tipos de pessoa têm o mesmo nível de felicidade. Leia na íntegra aqui: 

Há quem se orgulhe que sua consulta custe 200 reais por 50 minutos e que isso seja a verdadeira realização, poderia até ser se não houvesse a necessidade de esfregar isso para o mundo. Acho engraçadíssimo uma pessoa querer mostrar uma imagem de bem sucedida debaixo da asa dos outros, sem conquistar o mínimo de auto-suficiência e autonomia com a própria vida. Xuxa ganha mais do que isso apresentando um programa tosco. Quem é muito bom no que faz e muito bem remunerado não tem o péssimo hábito de soprar isso ao vento ou jogar isso na cara dos outros. Essa forma exagerada de se enxergar é a manifestação de um ego ferido, invejoso e mal resolvido – grandes máscaras para esconder a falta de amor que sentem por si mesmos. Escrevo tudo isso por ter vivenciado uma situação completamente insana relacionada com uma pessoa altiva, soberba e ignorante da minha própria família, o que me faz crer que até mesmo a família nós podemos escolher. Consangüinidade não move absolutamente nada em termos de empatia e amor. Todas as relações são construções de afeto ou desafeto, quer façam parte da sua genealogia ou não.

Conheço pessoas com doutorado, ricas e humildes. Conheço pessoas com mestrado, bem de vida e humildes. Conheço pessoas com mestrado, que pensa ter uma condição que não tem e soberbas. Conheço pessoas com ensino fundamental incompleto, ricas e humildes. Assim como o inverso de tudo isso. A questão não é o nível de escolaridade ou saldo da conta bancária, é a HUMANIDADE que habita dentro de cada um. Valores que adquirimos com as nossas vivências.

Tudo isso é só um reflexo da educação que recebemos. Fomos educados a competir um com os outros pelo viés materialista, o pior tipo de educação que um indivíduo pode ter na vida. E eu caminho no sentido oposto a isso, os valores que eu aprendi dentro da casa da minha mãe são inversos a tudo isso. Não bajulo ninguém. Ela me ensinou a respeitar as pessoas e valorizar a felicidade, não o dinheiro. Por esta educação que eu recebi é que hoje eu prefiro colecionar momentos incríveis com pessoas queridas do que dinheiro na poupança. O que eu ganho é o suficiente para custear minhas despesas, parcas extravagâncias, e sou muito feliz assim. Tenho minha casa, minha filha, meu marido, pessoas queridas, uma piscina de plástico no quintal para os dias mais quentes, meus livros na estante, muitos sonhos e problemas como qualquer outra pessoa. 

O problema não é dinheiro em si, mas na dificuldade do homem se relacionar com ele. A soberba é uma enfermidade a ser tratada, pelo amor ou pela dor. Quem gosta de exibir segurança no que faz geralmente esconde uma tremenda dificuldade em sua tomada de decisões. Do lado oposto da soberba mora a humildade, uma virtude que só quem possui autoconhecimento pode ter.

Para finalizar, como já disse Arnaldo Antunes: dinheiro é um pedaço de papel.





quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Reflexões sobre 2014


Para onde for sua atenção é ali que a vida irá crescer. Assim você cria as circunstâncias que virão ao seu encontro. Pergunte a si mesmo: o que me esvazia e o que me preenche? Desvie a atenção das áreas que drenam seu poder. Descubra o que faz seu coração bater mais forte e coloque sua energia naquilo. Descubra seu propósito e essa será a sua paixão. Então não haverá tempo para que ervas daninhas reivindiquem sua atenção.
Dadi Janki

Hoje, ao acordar, li esta mensagem e ela ressoou dentro de mim, pois depois de tanto tempo finalmente venho fazendo coisas e cultivando hábitos que realmente fazem meu coração bater mais forte e enxergar um sentido na minha existência, mesmo que ele não seja tão abrangente quanto eu gostaria que fosse, mas já é um caminho. Após a pequena leitura comecei a pensar no meu ano e como ele foi confuso e ao mesmo tempo libertador.

2014 foi um ano muito difícil, não só para mim e na esfera geográfica do meu umbigo, mas para muitas pessoas. Talvez seja Saturno, colocando pressão para mudarmos os degraus da escada e das perspectivas do olhar. Entre crises existenciais e rompimentos, entre novos caminhos e dificuldades, a notícia é que 2014 continua até março de 2015, até lá nosso papel é segurar os forninhos como a pequena Giovana.  Paciência talvez seja a palavra-chave.

Durante algum tempo vaguei procurando este propósito e ele veio na forma em que eu mais gosto de colocar minhas energias: no estudo, no conhecimento, no processo dialético que ele coloca os indivíduos de se construírem destruindo alicerces antigos. A licenciatura de História chegou como um projeto de vida e mesmo ainda no inicio de toda a jornada já sinto o quanto ela provocou mudanças dentro de mim. Uma delas é sair do reino do achismo, da opinião. Elas pouco interessam e em nada mudam os fatos, exceto pelas energias de ânimo ou mal estar (sua ressonância mais óbvia).  Isso justifica minha parca produção no blog este ano, que surgiu sem meta, tomou um rumo e provavelmente irá tomar outro. Não é possível fazer mergulhos profundos sem deixar que as mudanças naturais aconteçam por si mesmas e se tentarmos impedir isso certamente não valerá de nada o esforço.

Neste tempo que em me formei em jornalismo e comecei a fazer história foram 3 anos. 3 anos sem estudar, sem aquelas cobranças intelectuais que para mim sempre foi um desafio e um prazer. Pela primeira vez tenho uma ambição, tenho o desejo de ser muito boa no que eu estou fazendo. Observei que nesses 3 anos minhas palavras murcharam e eu não posso ficar sem estudar, pois não estudar é não conhecer o que ainda está obscurecido. É padecer num reducionismo, num achismo completamente sem fundamento, irracional e ilógico. Achar que sabe tudo é pior soberba que um ser humano pode cometer contra si mesmo.  É como recusar que as nossas potencialidades sejam desenvolvidas em prol de qualquer outra coisa do mundo real que nos torna mecânicos - máquinas a reproduzir aquilo que óbvio deseja.  Dentro da mediocridade humana que predomina e se apossa dos pensamentos, é papel de cada um, em sua individualidade própria encontrar subsídios que façam emergir além da superfície. Não é uma tarefa fácil, mas é ela que confere sentido e valor a nossa existência.  

Voltando a reflexão de 2014 e como ela fez uma tremenda dança das cadeiras, hoje me ponho a estar nos lugares e com pessoas que no interlúdio da ausência faz com que meu coração vibre em estar próxima, dos geograficamente distantes e próximos. Ironia da vida, quem você mais gostaria da presença é quem está em momentos esporádicos com você, talvez isso crie uma áurea mágica nas pessoas.  Isso, entretanto, não fez com que eu desvalorizasse os que estão próximos, são eles que dão a alegria do dia, a cor vibrante mesmo quando tudo amanhece em tom pastel sob a nuvem furtiva da saudade. Tenho primado pela qualidade de todos esses encontros e que eles possam ir além de conversas tolas sobre a meteorologia. Isso necessariamente também incluiu um certo recolhimento meu das redes sociais após as eleições. Foi muito desgaste emocional para pouca coisa. A cada dia venho ficando mais distante do virtual e mais presente na realidade, seja olhando a Kalindi dançar na sala, ou lendo meus livros (que estão se acumulando na estante) ou fazendo uma coisa diferente para jantarmos. Tenho preguiça, muita preguiça de olhar a timeline do Facebook, de responder as inúmeras mensagens de whatsapp (sobretudo as dos grupos que atropelam o irrelevante) e de me fazer presente para perfis. Venho acessado de forma objetiva as páginas do meu trabalho, mas sem grande envolvimento e perda de tempo com o que não interessa. Perdi a vontade. Estou fechada para balanço. F5.

 2014, sobretudo seu inicio, foi o ano do cansaço para mim. Cansaço de fazer as mesmas coisas, de ouvir as mesmas ladainhas e não ver o cenário mudar. Acontece que neste ínterim eu mudei, mudei muito. Perdi o medo de todas as coisas que me assombravam e isso me deu coragem para assumir quem realmente sou e todas minhas características que vão ao desencontro do socialmente aceitável.  Não desejo ferir, nem machucar ninguém, mas também não estou disposta a agradar sufocando a mim mesma. Assim como me vejo muito mais aberta a vivências e desafios do que outrora, aceitando minha alma cigana que por algum tempo foi sufocada pela mesmice dos dias.

Sou grata ao universo e a dinâmica da vida por ter postos pessoas no meu caminho e tirado outras. Axé?! Axé! Mãos invisíveis que não são nem tão mãos e nem tão invisíveis quanto a própria natureza do devir. Assim foi (e está sendo) 2014, tirando coisas do caminho, colocando tantas outras, desde obstáculos a mais livros para que eu pudesse de forma criativa encontrar o instante de paz no meio do caos. Entre forças de determinação e preguiça vou guiando meu corpo a este novo propósito e esperando que 2015 seja mais ameno.


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Mate-me quando quiser, Anita Deak


Hoje vou escrever a resenha do livro Mate-me quando quiser, da escritora e jornalista Anita Deak. Desde que a conheci fui seduzida por suas palavras, sempre tão certeiras e envolventes e quando soube do lançamento do livro me roí de curiosidade para lê-lo. O enredo já é diferente de tudo o que habita o imaginário comum, a personagem principal (nem tão principal assim com o desenrolar da história) contrata um matador chamado Soares para tirar sua própria vida. Ela paga, manda uma passagem para Barcelona, o local onde quer viver seus últimos instantes, e pede que o serviço seja feito dentro de 4 meses.



Acontece que mais 3 personagens entram na história e mudam a perspectiva de vida da Mulher e do próprio matador.  A história de todos eles se cruzam, se extrapolam. Neste ínterim onde todo o desenrolar da narrativa transcorre, somos transportados para dentro deste cenário e fica difícil sair, o que me explica ter engolido o livro em um pouco mais de 24h. Minha madrugada foi embalada pelas palavras da escritora Anita Deak, que usa os diálogos dos personagens de maneira sutil, poética e emblemática para nos falar de escolhas, de possibilidades, surpresas numa delicadeza estética sem fim.




Temos muitas leituras dentro de um único livro habitando a vida das 5 pessoas que se envolveram na trajetória de suicídio (ou tentativa) da Mulher. Nós, leitores, somos agraciados com diálogos ricos que nos convidam a uma reflexão sobre a fé, o conceito de família e sentimentos.

Por se tratar de um livro extremamente dinâmico e cheio de mistérios, não cabe a mim contar sobre o desenvolvimento da história. É preciso lê-lo. Urgente. Foi assim que ele chegou até a mim, de maneira urgente. Tão urgente que o correio chegou e fui até a padaria sentar, tomar um café e ler, ler até quando o relógio se mostrasse meu amigo.

E encerro esta resenha assim, dizendo para vocês que o “Mate-me quando quiser” é mágico. Ele te transporta, ele te faz viajar, trabalha com todo o seu repertório imaginativo. Recomendo a leitura para ontem!


Você pode adquirir o livro pela Saraiva, clicando aqui.