quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Do Cabaré ao Lar (2)


Hoje é o dia da segunda resenha sobre o livro Do Cabaré ao Lar – A utopia da cidade disciplinar e a resistência anarquista, Brasil 1890-1930 da historiadora Margareth Rago. Vou me concentrar na segunda da parte da obra que fala sobre a Colonização da Mulher, que pessoalmente foi bastante instigante e impactante.

Na primeira resenha falei sobre os conceitos de fábrica higiênica e satânica e remodelação dos ambientes de trabalho e da necessidade dos fabris de assemelhá-lo ao ambiente do lar. Agora Margareth Rago explicita sobre o papel da mulher nesta mudança de paradigma. Neste momento cabia a ela ser a “soberana” do lar, vigiar cada membro, seus horários, hábitos, prevenir qualquer desvio. Às mulheres pobres deveriam ter como modelo a postura da mulher burguesa. Forja-se uma representação simbólica: frágil, delicada, sentimental, vigilante, esposa-mãe-dona de casa e assexuada. Sua função essencial não era mais as longas jornadas dentro das fábricas, mas sim dentro do lar executando suas tarefas domésticas e exercendo a sagrada maternidade.

“Pouco importam os vários artigos que na imprensa operária cobram uma maior participação feminina nos movimentos reivindicativos de classe. Na prática, esses movimentos eram controlados por elementos do sexo masculino, que certamente tinham maior liberdade de circulação, maior acesso à informação e maior organização entre si. As mulheres deveriam participar enquanto filhas, esposas ou mães, isto é, na condição subordinada dos líderes.”

Neste período estabelecia-se o confinamento da mulher na esfera privada da vida doméstica e realizar-se através das conquistas do marido e dos filhos. E para as mulheres que não abandonaram seus postos de trabalho, cabiam sempre cargos de assistência e ajudantes sem nenhum poder de decisão. A imagem da mulher era retratada como servil por natureza, mãe-sacrifício.

O Mito do amor materno

O discurso que sustentará o mito do amor materno parte da classe “científica” dos médicos sanitaristas da época, que com as grandes taxas de mortalidade infantil, procuram demonstrar que a mulher possui uma missão sagrada e vocação natural para a procriação e a maternidade a fim de fundar um novo modelo formativo a ser seguido por todas as mulheres independentes da classe social.

A amamentação foi o primeiro tópico que mediou o discurso dos médicos sanitaristas, pois a prática não era recorrente tanto pela questão estética (nas mulheres burguesas) quanto econômica para as operárias que precisavam retornar aos postos de trabalhos decorridos o primeiro mês do bebê, o que resultava no aleitamento mercenário. “Os médicos propunham, então, que as mulheres fossem convencidas de sua vocação natural para a maternidade e aconselhadas sobre os perigos que a criança alimentada fora do seio materno poderia sofrer.”

Tanto quanto a escrava, a nutriz assalariada é condenada como portadora do vírus físico e moral da contaminação e posição desagregação da família. A partir desta figura da anormalidade é que se constrói a imagem da boa mãe; daí o papel moralizador da nova figura materna proposta pelo discurso médico como a guardiã vigilante do lar.”

A partir deste discurso o poder médico consegue penetrar dentro do interior das famílias redefinindo o papel de cada membro procurando persuadir as mulheres, tirando-o a liberdade de fazer suas escolhas com a alocução moralizante de que é dentro do lar, exercendo a maternidade que a mulher se realizará quanto a sua função natural estipulada pela natureza. E todas as mulheres que não iam de acordo com este novo papel instituído legalmente pela classe médica e pelo Estado estão no campo da anormalidade e colocavam em risco o futuro da nação. A profissionalização da mulher era tida como um desacordo com sua natureza.

Margareth Rago enfatiza a importância do filósofo iluminista Rousseau e a sua influência entre os homens cultos tanto da Europa como no Brasil no processo de redefinição do papel feminino dentro da sociedade. No livro Émile ele descreve como sendo a natureza da mulher a submissão e o sacrifício, a devoção e a ternura como traços inatos de sua personalidade.

Sequestro da sexualidade insubmissa

Os médicos sanitaristas também adentraram no submundo da prostituição e concluem que dentre inúmeras causas que levam às mulheres a abandonar seus lares para se prostituir estão: a ociosidade, preguiça, desejo incontrolável do prazer, desprezo pela religião e a falta de educação moral.
Desta forma a representação simbólica construída da prostituta é contrária ao da mulher honesta, que é casada, mãe, fiel, dessexualizada. São as putas a ameaça da boa conduta do homem e que subverte a lógica moralizante do mundo. Elas são as transmissoras de doenças, que colocam em risco a boa saúde dos homens e da sociedade, que corrompem os trabalhadores e que desvia a boa conduta. Partindo deste princípio elas devem ser enclausuradas dentro de espaços regulamentados e vigiados pela polícia e autoridades médicas.

É engraçado como esses conceitos que giram entorno da prostituta continuam tão atuais e pouco se avançou na reflexão sobre o papel desta profissão.

A autora Margareth Rago enfatiza diversas pesquisas e teses que tentam enquadrar anarquistas, criminosos e putas com a mesma configuração cerebral o que os distinguiriam das pessoas normais. “O ideal de puta para os regulamentaristas é a mulher recatada e dessexualizada, que cumpre seus deveres profissionais, mas sem sentir prazer e sem gostar da sua atividade sexual.”

Conclusão

Outro tema importante nesta segunda parte do livro é a emancipação da mulher, discussão presente na imprensa anarquista que engloba tanto a operária quanto a burguesa, já que ambas são oprimidas dentro de seus papéis. Ressaltava que a mulher tem a mesma capacidade de reflexão que o homem e a educação aparece como o meio mais importante de libertação e luta pela independência. Denuncia-se o caftismo em família. Discute-se o amor livre, novas propostas de relacionamento, o divórcio e o modelo moralizador do casamento.

O matrimônio apenas serve para abreviar a duração do amor, tornar odiosa a união. No lar, a mulher é escrava, o homem é o senhor; este tem o direito de mandar, aquela o direito de.... obedecer. [...] Como pode existir o amor entre uma escrava e um senhor? [...] Por isso se diz: o casamento é a morte do amor...” (O amigo do Povo, 2/8/1902)



Um comentário:

norma disse...

Oi Flor,

Sua resenha está tão 'redondinha', que tive de me controlar para não sair correndo a cata de uma livraria 24 horas. :). Fiquem bem, Norma