sábado, 3 de janeiro de 2015

Do cabaré ao lar (1)



Recebi da Editora Paz e Terra o livro “Do Cabaré ao lar – a utopia da cidade disciplinar e a resistência anarquista”, da historiadora Margareth Rago. Ainda não conclui a leitura, mas sendo o livro tão instigante e fantástico resolvi dividir a resenha em partes.

O livro enfoca a primeira República do Brasil e problematiza a história social, revelando os desafios dos operários fabris, disciplinarização, a colonização da mulher, o mito do amor materno, a pedagogia paternalista dos patrões etc. Com uma riqueza de detalhes e documentos históricos, o livro é leitura indispensável para quem se interessa pela historiografia brasileira.

A primeira parte do livro enfatiza os conceitos da fábrica satânica e higiênica, o crescimento urbano-industrial e a tentativa de domesticação do operariado. Com a drástica mudança no modo de vida e no saber-fazer do trabalho, as pessoas são exploradas dentro das fábricas com longas jornadas, péssimas condições de higiene e segurança, violência física e moral, opressão, humilhação, o que resulta numa alteração profunda do modelo de vida no qual estavam submetidos anteriormente.

Com a eclosão de greves, destruição de maquinários e sabotagens proposto e executado pelas associações de trabalhadores, os fabris se viram na necessidade de dominação sutil e na alteração na estratégica de controle dos operários, que incluía tratá-los de forma individualizada para enfraquecer suas mobilizações coletivas e ignorar suas entidades de classe. Neste momento surge o conceito de fábrica higiênica e a atuação patronal que “foi marcada ambiguamente pela intenção de proteger os trabalhadores que viviam em condições deploráveis mas, ao mesmo tempo, de controlar e disciplinar todos os seus hábitos.” Foram realizadas algumas mudanças dentro do interior das fábricas, como tornar o ambiente limpo, iluminado, arejado, com oxigênio disponível para todos (!!!) de modo a se tornar mais aconchegante e parecido com o interior de seus lares. Todas as essas mudanças partiam do pressuposto de minimizar o descontentamento da classe,  minimizar os prejuízos dos fabris e potencializar sua produção. Acreditava-se que mudando o ambiente seus trabalhadores teriam comportamentos mais dóceis e disciplinados.

Mas o que queria o movimento anarquista? Apropriação das fábricas e reorganização do processo de produção pelos trabalhadores, já que eram eles que conheciam e dominavam a técnica de trabalho na prática, e assim superar a divisão social do trabalho realizada pelo sistema capitalista, colocando abaixo a hierarquia despótica. “Também os anarquistas sonhavam com uma sociedade em que o desenvolvimento da tecnologia libertaria o homem do “reino da necessidade”, permitindo uma vida mais livre e criativa, onde o trabalho seria transformado enquanto atividade de autocriação da humanidade.”

A autora reforça a ausência de publicações que evidenciasse as condições de trabalho dos operários por parte da imprensa oficial, o que mostra o desinteresse do poder público pela situação dos trabalhadores no Brasil. Cabendo aos jornais anarcossindicalistas denunciar a conjuntura em que se encontravam os proletariados.

Vejam o sumário:




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