quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Uma montanha russa chamada: maternidade.



Hoje quero escrever sobre maternidade e como as coisas se transformam quando embarcamos nessa montanha russa que é amar, cuidar e educar outro ser humano. Os ciclos de mudanças existem para todo mundo, vivendo a maternidade ou não. Muitas são as vias da existência e crescimento pessoal, a maternidade não faz ninguém mais especial por que está vivendo ela. Depois que minha filha nasceu passamos por muitos baixos e altos, nesta ordem, pois foi exatamente assim.  Hoje, na plenitude de ser mãe vejo o quanto minha filha e as situações que vivemos juntas proporcionaram a mim um engrandecimento pessoa incomensurável. Vou pontuar algumas:

1.       Minhas decisões precisam ser pensadas. Aquele impulso instintivo deu lugar a reflexões antes de tomar uma atitude. Obviamente que as coisas eram mais fáceis do que atualmente e as mudanças requisitavam apenas, coragem. Hoje eu preciso de coragem e planejamento.

2.       Apesar da vivência negativa do puerpério, com a fragilização do meu corpo, veio a crise de identidade “quem sou eu”, um peito?! Uma mãe?! Eu mesma?! E quando isso passa o que eu vi foi nascer outra mulher, mais empoderada, com a autoestima no seu lugar, mais madura, objetiva, prática e bem resolvida com o mundo, sem vergonha, sem medo de ser quem eu sou, sem medo das mudanças, sem medo dos julgamentos dos outros. Foi-se embora junto com a menina que eu era as picuinhas, as pequenas coisas mal resolvidas, o ciúme, o sentimento de posse e de querer controlar todas as coisas ao redor. A maternidade me deu a sabedoria de desfazer os próprios nós que eu criei ao longo dos anos.

3.       Uma das coisas que mudou com a maternidade foi a necessidade de me afastar dos tóxicos: pensamentos tóxicos, pessoas tóxicas e situações tóxicas. Minha vida inteira foi permeada por pessoas, em diferentes esferas e ocasiões, que tentaram e tentam me ridicularizar e me diminuir. Só que eu passei a me amar tanto, a me aceitar tanto, que o espaço para esses discursos e pensamentos opressores diminuiu. Não que eles não existam mais, quando em vez aparece alguém para me xoxar. Seja a forma como eu me posiciono na vida e nas lutas sociais, seja meu batom azul, meu cabelo laranja, o fato de que hoje eu tenha uma dependência maior com meu companheiro, por não  poder/conseguir atualmente trabalhar fora e viver de freelas em decorrência da maternidade. Sempre tem alguém para te criticar, te diminuir e socar sua autoestima, mas eu estou tão bem resolvida comigo que isso me afeta muito pouco, ou quase nada. Só machuca mesmo quando vem de alguém que você nutre muito afeto.

4.       Outro ponto que foi muito importante na minha vida pós-maternidade foi a retomada dos estudos. Com o nascimento dela ficou muito claro que eu precisava fazer outra coisa profissionalmente, algo que eu sentisse prazer, satisfação de fazer e em meio a tantas reflexões e assimilações com coisas que aconteceram no passado me aventurei numa nova graduação no qual foi a amor a primeira vista: História, licenciatura. Ali pude vislumbrar realmente a junção dos meus potenciais com meus sonhos. Se ela não tivesse nascido bem provável que eu estaria na mesma situação, cansada de fazer o que eu fazia, porque não era aquilo e resignada. A maternidade me deu potência, já que nunca quis que o fato de ser mãe me impedisse de fazer escolhas autônomas, ainda que elas sejam mais difíceis. Ao longo dos 10 anos de relacionamento com meu companheiro sempre dividimos tudo na sua devida proporção e mesmo que atualmente minha contribuição financeira não seja a mesma dos anos anteriores isso não me culpabiliza.


5.       A verdade de ser quem eu sou, sem medo de ser quem eu sou, com a bagagem de todos os erros, os acertos, os processos e transmutações que eu passei que me ajudaram a tornar a pessoa de hoje: incrivelmente menos egoísta, mais altruísta, mais sensível, ainda que isso signifique não deixar as pessoas pisarem em mim. Em dois anos e meio fui remodelando todas as minhas relações: com meu companheiro, com meus amigos, com minha família. Buscar novas configurações para se relacionar conjugalmente, o que salvou nosso casamento em meio tantas crises e mudanças. Parar de exigir dos amigos a presença que você também nunca deu e compreender as limitações de cada um. Com a família a valorizar quem está perto de você – mesmo longe, quem se preocupa, quem se importa, quem nutre afeto, quem participa, quem luta, sofre, sorri e comemora junto. Família não é parente, nem parente é família. Os laços afetivos, todos eles são construções sociais regadas de respeito, empatia, amor e unidade na diversidade.

Por tudo isso e muito mais que sou muito grata a filha que tenho, que mesmo tão pequena já me proporcionou transformações tão substanciais que eu só tenho a agradecê-la por isso.